Como é o seu senso de humor?

· janeiro 6, 2017

O senso de humor é uma das qualidades mais valorizadas, justamente por sua escassez. As pessoas que são capazes de brincar e fazer os outros rirem são como um remédio para elas mesmas e também para os demais. Capazes de refrescar até mesmo os momentos mais amargos da vida. Sem dúvidas, trata-se de uma grande virtude e de um mecanismo automático e nem sempre consciente, realmente útil para deixar as tensões acumuladas irem embora.

O riso nos liberta pois permite que sejamos espontâneos, e tem em sua essência um componente de piada. Uma única sessão de gargalhadas é muito mais relaxante do que as tarefas que planejamos com o mesmo propósito. Assim, o riso e o senso de humor têm essa capacidade mágica de nos renovar e melhorar nossa disposição para enfrentar o mundo.

“Onde não há senso de humor, há dogma”
-Alfonso Ussía-

Sigmund Freud concedeu às piadas e ao riso um papel muito importante dentro da teoria psicanalítica. Descobriu que, através destes momentos divertidos cotidianos, o inconsciente está nitidamente se expressando. De maneira que aquilo que nos causa graça também revela nossos desejos e sentimentos mais profundos.

Como é seu senso de humor? Do que você ri?

As pessoas riem de situações surpreendentes, nas quais a partir de algo mais ou menos absurdo, constrói-se uma nova mensagem que faz sentido. Ou ao contrário: quando se desprende um sentido absurdo de algo perfeitamente coerente.

O que causa riso em um mal-entendido tem um papel fundamental. Esse mal-entendido origina-se dos duplos sentidos, no geral. Isso, por sua vez, dá origem a três tipos de piadas ou motivos de riso: o comentário engraçado ou espirituoso; a piada tendenciosa ou excessivamente inocente; e a piada “verde” ou de conteúdo sexual ou obsceno.

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Freud descobriu também que a censura é quebrada através da piada. O gracejo permite trazer para o debate temas ou situações que são mais ou menos tabu no mundo “sério”. Muitas das piadas expressam conteúdos agressivos ou sexuais, que seriam intoleráveis em outro tipo de contexto.

Como esta piada:

Um intermediário apresenta ao seu cliente a mulher que escolheu para ele se casar. Desagradavelmente impressionado, o jovem diz ao seu agente: “O que você me trouxe aqui?! Ela é feia, velha, zarolha, desdentada e…” “Pode falar alto – interrompe o outro -, ela também é surda”.

Quando você ri do ridículo ou dos seus próprios defeitos, e dos outros

O ridículo se configura quando há uma desproporção entre os elementos que compõem uma situação.  É o caso dos palhaços, que usam sapatos enormes que são muito engraçados. Também é o caso de um desfile de moda em uma das grandes passarelas (Paris, Milão, Madri, etc.), nas quais alguém tropeça.

Os humoristas ridicularizam as figuras de poder através de imitações de personagens e situações famosas protagonizadas por eles. Geralmente, essas imitações buscam exagerar um aspecto que aconteceu com aquela personalidade, expressando críticas mordazes e, muitas vezes, sendo sumamente agressivas. No entanto, são toleradas porque contribuem com a catarse: uma das ferramentas que os cidadãos têm frente ao poder.

Um exemplo deste tipo de piadas ou imitações é:

 Mãe e filho:
– Filho, nunca minta, as pessoas mentirosas nunca serão algo na vida.
– Então, por que votamos nos candidatos que nunca cumprem o que prometem?

A brincadeira e o ridículo, através da imitação, são instrumentos que permitem questionar comportamentos, tirando seu mérito e expondo-os sem medo. Porém, quando são dirigidos a uma pessoa vulnerável, o efeito é o contrário: estabelece uma relação de poder vertical, que vitimiza quem é vulnerável. É o clássico “rir das pessoas, e não com elas”.

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As piadas picantes e as inocentes

O assunto sexual é uma constante em muitas piadas, especialmente utilizando o “duplo sentido”: por um lado são uma afirmação que não tem nada a ver com o sexo, mas por outro tem tudo a ver. Como esta:

Dois amigos se encontram e um diz ao outro:
– Ontem cheguei em casa e peguei minha mulher na cama com um cara muito forte. O caso é que, para a minha surpresa, o verme veio para cima de mim, me puxou pelo pescoço e me empurrou para um canto. Depois fez uma linha no chão e disse:
– Se você pisar nessa linha, eu te mato. Então ele voltou para a cama com a minha mulher, para continuar o que estavam fazendo.
– Meu deus! E o que você fez?!
– Eu? Quem esse cara pensa que é?! Toda vez que ele não olhava, eu pisava na linha!

As piadas de duplo sentido com conteúdo sexual fazem rir porque trazem a um primeiro plano um assunto que não deixa de ser tabu. No exemplo anterior, mais que o tema em si, o que faz rir é a sagacidade de fazer o outro pensar em sexo, sem que esse seja o assunto, usando uma forma espirituosa.

Mas as piadas ingênuas e inocentes também causam riso, justamente pela candura ou pela obviedade que carregam. Como esta:

Um morcego bebê diz ao seu amigo:

– Como você se chama?

– “Vam” – o segundo responde.

– “Vam”, o que? – pergunta de novo o primeiro.

– “Vam piro”. E você?

– Eu me chamo “Outro”

– “Outro”, o que?

– “Outro vam piro”.

Essas piadas inocentes têm uma forma de humor “branca”, pois seu sentido não repousa em uma agressão camuflada e nem em um duplo sentido que rompe com um tabu, mas sim na pura espiritualidade, em algo puro. Em sentido estrito, são jogos mentais da linguagem.

O humor é uma forma válida para expressar as ideias. No entanto, persiste ainda a polêmica sobre quais são seus limites. Cabe em todas as ocasiões? É valido mesmo quando representa uma forma de estigmatizar um grupo, assim como acontece com as piadas sexuais? O senso de humor pode gerar ódios mortais como o que ocorreu nos lamentáveis fatos da revista Charlie Hebdo? O debate está aberto.

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