David Eagleman e a desmistificação da consciência

23 Outubro, 2020
David Eagleman é um neurocientista único. Ao contrário de seus colegas, ele não gosta de debates intermináveis ​​sobre pequenos detalhes; ele prefere Big Data ao laboratório. Como inventor, ele já tem várias patentes registradas.

David Eagleman é um dos neurocientistas mais populares. Seu programa de televisão, The Brain with David Eagleman (no Brasil, Segredos do Cérebro) se tornou o programa favorito de milhões de pessoas. Inclusive, muitas pessoas o chamam de “Carl Sagan do cérebro” devido à forma como ele alia o conhecimento e o entretenimento.

Independentemente da sua fama ou popularidade, David Eagleman fez interessantes contribuições para a ciência. Como estudioso do cérebro, ele se concentra em questões sobre a consciência, um assunto que para ele é intrigante e fascinante. A esse respeito, ele forneceu informações paradoxais e interessantes.

David Eagleman diz que a consciência é o quarto das vassouras na mansão do cérebro” e que ela foi superestimada. Inclusive, ele concorda com Sigmund Freud e segue sua teoria do inconsciente, afinal, o inconsciente é muito mais amplo e vai muito mais além do que o consciente.

“Acontece que sua mente consciente – a parte que você pensa como você – é realmente a menor parte do que está acontecendo em seu cérebro, e geralmente a última na fila para encontrar informações”.
-David Eagleman-

David Eagleman e a consciência

David Eagleman e a consciência

A consciência continua sendo um assunto cercado de mistérios. David Eagleman destaca que, quando alguém tenta entendê-la, é como um peixe tentando entender se existe vida fora da água.

Ele especifica que muito do que acontece no cérebro acontece sem percebermos. É por isso que, como a maioria dos neurocientistas, ele não acredita que exista algo como “livre arbítrio”. Ele acredita que algumas partes do cérebro são dirigidas por outras partes, o que o leva a entender tudo o que acontece a partir das leis físicas.

No entanto, ele mantém a mente aberta. Ele não descarta que haja algo incompreensível para a ciência atual e que corresponda a esse espaço de liberdade na mente. Ele acrescenta que as emoções são fenômenos altamente complexos e que condicionam a nossa definição de tudo ao nosso redor.

Enquanto a razão trabalha com informações muito específicas, a emoção trabalha com múltiplos dados em uma escala maior. Ele afirma que as decisões ideais são aquelas que envolvem cognição e emoção. Ele vai ainda mais longe afirmando que a razão, por si só, pode ser perigosa, especialmente ao fazer uma análise do ponto de vista moral.

Semelhanças com Leonardo Da Vinci

Uma das facetas mais marcantes de David Eagleman é a de inventor. Em uma de suas palestras públicas mais memoráveis, durante uma conferência TED, a plateia percebeu quando ele começou a falar e se mover lentamente. No meio da palestra, ele tirou a camisa e todos puderam ver que ele usava um colete colado à pele.

Eagleman mostrou como tudo o que ele dizia era “traduzido simultaneamente” para o seu cérebro. As palavras eram convertidas em vibrações que circulavam por suas costas através de pequenos motores. Ele comparou esse sistema de vibrações ao de um celular.

Dessa forma, os sinais da sua laringe quando ele falava eram convertidos em vibrações que sua pele podia reconhecer, que então eram transmitidas ao seu cérebro. Consequentemente, o cérebro identificava os sons. Mas o que isso significa? Basicamente, David Eagleman mostrou na prática como esse colete tornava possível que um surdo aprendesse a ouvir.

Após essa conferência, várias empresas se interessaram pela invenção, então David Eagleman assinou com uma delas para estudar a sua produção em massa. O aparato chama-se Ipad e atualmente custa cerca de 500 euros. No entanto, essa não é a única invenção que esse neurocientista patenteou.

Um cientista produtivo

Ele criou um aparelho que permite avaliar se os jogadores de qualquer esporte sofreram uma concussão após uma pancada. Esse dispositivo funciona como um videogame e é capaz de avaliar 12 variáveis ​​para emitir um diagnóstico preliminar.

Além disso, ele projetou um dispositivo que ajuda a polícia a determinar se alguém ingeriu álcool ou usou drogas. Em uma de suas abordagens mais audaciosas, ele afirma que, no futuro, os julgamentos judiciais devem levar em conta a neurociência antes de proferir um veredicto.

Existem fatores que estão além do “livre arbítrio” do suposto infrator. Por exemplo, de acordo com ele, as pessoas nascidas nos anos 1960 nos Estados Unidos têm uma maior probabilidade de infringir a lei. Por quê? Não se sabe, mas é um fato. Inclusive, ele vem pesquisando o assunto há vários anos.

Atualmente, David Eagleman está trabalhando em um dispositivo relacionado à esquizofrenia. Seria um aparelho que os pacientes poderiam carregar no bolso e que os ajudaria a corrigir alguns pequenos erros de percepção. Se ele tiver sucesso, será uma verdadeira revolução.

Eagleman, D. (2013). Incógnito: las vidas secretas del cerebro. Anagrama.