O dilema de Collingridge ou como contornar as tecnologias

As inovações estão acontecendo em um ritmo acelerado. Tudo isso é realmente um avanço ou talvez engendre sementes de autodestruição para o ser humano? É a isso que se refere o dilema de Collingridge.
O dilema de Collingridge ou como contornar as tecnologias

Última atualização: 19 Novembro, 2021

O dilema de Collingridge é mais relevante hoje do que nunca, embora tenha sido proposto por David Collingridge em 1980. Ele era um acadêmico da University of Aston, no Reino Unido, e publicou um livro chamado The Social Control of Technology em que apresentou este interessante conceito.

Para entender o que o dilema de Collingridge apresenta, é preciso levar em conta o fato de que cada mudança tecnológica traz progresso, mas em muitos casos também levanta problemas de outra ordem. Por exemplo, os meios audiovisuais trouxeram novas possibilidades de aprendizagem e entretenimento, mas ao mesmo tempo reduziram o interesse pela leitura.

O mesmo vale para praticamente todas as inovações: trazem algo de positivo, mas também são potencialmente capazes de causar problemas. A questão é que a tecnologia é irreversível, então, uma vez que uma invenção é introduzida, fica cada vez mais difícil retroceder, mesmo que as consequências sejam terríveis. Isso é precisamente o que o dilema de Collingridge levanta.

Quando a mudança é fácil, sua necessidade não pode ser antecipada; quando a necessidade de mudança é aparente, a mudança já se tornou cara, difícil e trabalhosa. ”
-David Collingridge-

Homem exausto olhando para o celular

O dilema de Collingridge: a inovação e as suas consequências

Muitos partem da ideia de que qualquer inovação deve ser adotada imediatamente se cumprir a tarefa de tornar algo mais simples, rápido, barato, eficiente ou de melhor qualidade. Aparentemente, não há muito o que discutir e, portanto, o que se tem visto no mundo é isso: a adoção indiscriminada de tecnologias.

O dilema de Collingridge é uma chamada para pensar com mais cuidado, especialmente em uma época como a nossa, quando a inovação é contínua e significativa. É preciso ver como o simples controle remoto da televisão contribuiu para o sedentarismo e as pequenas e grandes consequências que isso trouxe.

Ninguém nega a utilidade de um telefone celular, mas também não pode negar o potencial de dependência desses dispositivos e as consequências negativas que podem resultar do uso indevido. Da mesma forma, tanta virtualidade torna precárias as relações humanas e reduz o número de experiências que temos cara a cara, embora ao mesmo tempo tenha resolvido problemas de distância, movimento e velocidade.

Inovações perigosas

Ainda não sabemos exatamente as consequências que o uso de computadores e telefones celulares pode ter a longo prazo. São invenções muito recentes para saber com precisão seus efeitos. No entanto, os verdadeiros perigos das inovações estão mais concentrados em outras áreas, como biotecnologia e neurociências, entre outras.

Que consequências a clonagem humana teve e terá no futuro? A inteligência artificial ultrapassará a inteligência humana? Que implicações isso pode ter? Estamos caminhando para um mundo em que os robôs se tornem nossos “parceiros” e, assim, poderemos projetar amores e amigos à vontade?

A questão da privacidade também gera polêmicas agudas, pois aos poucos vai ficando mais claro que vivemos em um mundo em que a privacidade é cada vez mais escassa. O dilema de Collingridge chama a atenção para isso e alerta para o fato de que, uma vez inserida uma tecnologia, será muito difícil voltar atrás.

Robô de inteligência artificial

Os dois caminhos para a inovação

O que o dilema de Collingridge expõe é que existem dois caminhos para a inovação. Um deles é analisar cada inovação, tentando antecipar suas possíveis consequências negativas. Desta forma, grandes males podem ser evitados. A outra alternativa é deixar a invenção seguir seu curso e, então, contornar suas consequências à medida que surgirem.

Diante desse dilema, a maioria dos cientistas se manifestou usando o que é conhecido como “princípio da precaução”. Isso indica que se as consequências potenciais de uma invenção podem ser catastróficas, seu avanço deve ser restringido ou mesmo interrompido, até que as evidências científicas confirmem que esse perigo não existe.

A grande questão é se todos os cientistas aderem a esse princípio, e é impossível saber a resposta. Atualmente, existe a possibilidade objetiva de que sejam desenvolvidos meios para controlar as mentes das pessoas à distância ou para construir uma raça superior em um laboratório. Os responsáveis por esses avanços vão parar? A dúvida permanece.

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