Frente a frente: a distância entre as pessoas no diálogo

fevereiro 2, 2020
A linguagem gestual também comunica, mas o faz em silêncio e complementa as palavras. O doutor em psicologia Marcelo R. Ceberio fala um pouco sobre isso e sobre a sua relação com os diferentes tipos de distância na hora de nos comunicarmos.

Apesar de a tecnologia ter reduzido o “cara a cara” no diálogo, estabelecer uma boa comunicação implica estar frente a frente, visto que a linguagem dos gestos é o grande comunicador silencioso que, na retaguarda, diz mais – ou pelo menos completa – o que se tenta transmitir por meio da palavra. A linguagem não verbal é determinante na transmissão de uma mensagem. Então, qual é a distância mais apropriada entre as pessoas para estabelecer uma comunicação efetiva?

Um universo gestual

O universo dos gestos, micromovimentos e movimentos faz parte da linguagem não verbal. Isso significa que o gesto pode ser considerado a unidade-base desse tipo de linguagem, e é definido como um movimento ou uma disposição das mãos, do rosto ou de outros membros do corpo que são utilizados para estabelecer a comunicação com outros seres humanos em relação direta e imediata.

A gestualidade pode ser considerada um movimento expressivo de conteúdos psíquicos em tensão, ou seja, os gestos são movimentos musculares que buscam a sua libertação. E a conquistam, tanto se forem voluntários, isto é, revestidos de intenção, quanto se forem involuntários, produto de um dinamismo inconsciente.

Colegas de trabalho conversando

Uma mímica ou um gesto, em geral, ocorrem com uma complexidade que escapa à possibilidade de conseguir medi-los de maneira precisa. É tamanha a sinergia de micromovimentos quase imperceptíveis para a captação consciente que é extremamente difícil realizar uma percepção abrangente e completa do universo gestual. 

O gesto nas interações humanas é um movimento simbólico que expressa e demonstra algo que deve ser decifrado. Ou seja, a gestualidade é um papel em branco a se interpretar.

Cada interlocutor pode codificar os gestos do seu repertório comunicacional de acordo com suas crenças, seus valores, suas significações pessoais, seu conhecimento do outro, o contexto em que a interação se desenvolve, etc.

Contudo, a gestualidade do rosto, do tronco e das extremidades, o uso do espaço e as ações que nosso corpo realiza fazem com que a linguagem paraverbal se constitua como um elemento espontâneo de transmissão de mensagens. Um recurso que é marginalizado ou fica relegado a um segundo plano em relação à linguagem verbal.

De fato, constituíram-se gerações de ouvintes que não apenas ouvem, mas também observam enquanto ouvem. A necessidade de ver o interlocutor enquanto se fala raramente é consciente, ou seja, não temos consciência de que precisamos olhar nosso interlocutor para compreender em toda a sua dimensão a mensagem que ele tenta nos transmitir.

Em geral, quando nos comunicamos, estamos falando “eu te escuto”, e não “eu te vejo”.

A distância entre as pessoas durante a comunicação

A gestualidade, as expressões corporais, o tom do discurso, a cadência e o ritmo, os movimentos que são produzidos entre volumes – mais ou menos proeminentes de corpos – se desenvolvem em um espaço entre comunicantes que se encontra delimitado. Um espaço que significa a distância ideal para que duas ou mais pessoas estabeleçam uma conversa.

Hall (1966) distingue a gestão do espaço e do movimento com relação a tal proximidade ou afastamento relacional e classifica quatro tipos de distâncias:

  • Distância íntima: implica uma distância de proximidade afetiva. É a distância usada por um casal em um relacionamento amoroso, por um pai que acaricia seu filho ou entre mães e filhos. É uma aproximação que permite a fusão dos interlocutores e, em certa medida, existe uma ruptura dos limites da territorialidade pessoal. Esse espaço convida à expressão afetiva, como abraçar ou acariciar o corpo do outro.
  • Distância pessoal: é uma distância de proximidade, mas na qual os interlocutores mantêm suas fronteiras pessoais. Ou seja, os limites pessoais não são perdidos e estão claramente definidos. É a distância das relações interpessoais implicitamente estabelecidas entre amigos, familiares ou colegas de trabalho. Ou também entre duas pessoas que têm um objetivo ou interesse em comum.
  • Distância social: nesse tipo de distância não existe contato físico. O olhar prevalece e passa a ser o único tipo de vínculo. Não se trata de uma relação impessoal, mas existe um espaço e uma distância de proteção em relação a eventuais invasões ou intromissões do interlocutor. É a distância ideal em situações de negociação e venda. Em geral, o espaço entre interlocutores é estabelecido por meio de mesas, balcões e todo tipo de objetos que impõem distância entre os comunicadores. Nas consultas psiquiátricas tradicionais, por exemplo, é a clássica distância terapêutica estabelecida pela mesa de trabalho, o jaleco, etc.
  • Distância pública: é a distância das relações formais. Não existe intimidade e menos ainda um vínculo personalizado. Perde-se qualquer tipo de relação direta, e é a distância típica do palestrante ou do professor.

Nesses três últimos tipos de distâncias, a extensão do espaço entre os interlocutores oscila entre 60 a 80 cm, que não é mais nem menos que a largura das portas ou de certos corredores.

Assim, a arquitetura expressa, de certa maneira, estilos de vida e interação. Tanto no design de uma casa que é planejada de acordo com as exigências particulares de uma família ou nos designs impessoais nas construções dos edifícios, as portas interiores, em geral, são menos largas do que aquelas que estão fazem limite com o exterior.

As portas interiores modernas, assim como os corredores, beiram os 65 cm de largura, enquanto as da entrada têm, aproximadamente, 80 cm. Nessa mesma linha, as construções da primeira metade do século XX se caracterizavam por ter portas interiores mais largas do que as atuais, e as exteriores tinham portas duplas.

Convém levantar a hipótese de que, na atualidade, apesar de vivermos épocas de relações mais impessoais, as distâncias pessoais, sociais e públicas foram reduzidas.

Nas primeiras décadas do século passado, apesar de as interações terem sido mais próximas e envolverem um maior conhecimento (vizinhos da rua, tempo para os amigos e as visitas familiares, etc.), impunha-se uma cota de distância formal em que, por exemplo, o contato físico não imperava e o tratamento formal era esperado. Assim como no exemplo das portas, a distância relacional era muito maior do que na atualidade.

No entanto, a distância relacional depende de cada contexto sociocultural. Cada cultura impõe o tipo de espaço entre os que se comunicam. Certos contextos possuem uma distância social mais próxima, equivalente à distância íntima para outras culturas.

Isso pode criar mal-entendidos entre pessoas pertencentes a contextos antagônicos no âmbito relacional, e mais ainda nos casos em que a forma de acompanhar as palavras é por meio do contato físico.

Amigos conversando

A distância relacional e o contexto sociocultural: um exemplo

Um exemplo, ao qual Paul Watzlawick (1976) faz referência, mostra tais diferenças. Uma série de pesquisadores explorou um fenômeno que acontecia no aeroporto do Rio de Janeiro.

O aeroporto tinha um terraço com uma varanda não muito elevada, lugar por onde uma série de pessoas havia caído nos últimos anos. Esses acidentes ocorreram com pessoas estrangeiras, principalmente europeias, que tinham relação com pessoas brasileiras.

Esse terraço ficava em um centro de reuniões e era usado em recepções e despedidas. O que descobriram foi que, quando os brasileiros estabeleciam um diálogo com os europeus, estes tendiam a se distanciar buscando estipular um espaço ideal para esse momento, justamente pelo fato de os brasileiros terem como costume uma distância social mais reduzida – talvez equivalente à distância íntima dos europeus.

Assim, os europeus começavam a se afastar um pouco para trás, ampliando a distância, ao que os brasileiros respondiam avançando, tentando estabelecer sua própria distância social. Dessa maneira, muitos dos europeus acabavam caindo para fora da varanda, no piso inferior do aeroporto.

Muito além das distâncias na interação impostas pela cultura, também há as distâncias que cada pessoa, de forma particular, determina para estabelecer a comunicação com o outro.

A distância padrão dos 80 cm permite centralizar o olhar no rosto do interlocutor e, por meio da visão periférica – não de forma nítida –, observar o resto do corpo com o qual enviamos mensagens gestuais.

Por fim, os gestos são impossíveis de dominar. Ou seja, nas mensagens verbais, de certa maneira, possuímos o domínio consciente do que desejamos expressar (apesar, é claro, dos atos falhos), mas nos gestos, isso é impossível.

Assim, ter consciência de qual é a nossa distância de comunicação e falar quando temos alguma dúvida na atribuição de significado que outorgamos ao gesto dos outros é favorecer uma comunicação saudável.