O efeito MUM: o que é e como nos afeta?

O efeito MUM está relacionado com a dificuldade em comunicar más notícias e com a tendência que temos a resistir a fazer isso. O que mais sabemos sobre esse fenômeno social? Por que ele acontece? Saiba tudo a seguir.
O efeito MUM: o que é e como nos afeta?

Última atualização: 04 Dezembro, 2020

Dentro do âmbito da psicologia social existem múltiplos fenômenos interessantes que nos permitem entender por que agimos de uma determinada forma quando nos relacionamos com os demais. O efeito MUM seria um destes fenômenos e é entendido como o ato de resistir a dar más notícias por medo de ficar associado a elas.

O meio social condiciona nossa forma de agir e isso explica, entre outros fatores, por que a presença dos demais influencia o nosso comportamento e a nossa forma de pensar ou sentir. Como veremos mais à frente, isso tem muito a ver com um efeito que acontece frequentemente e se relaciona com a evitação de sentimentos de culpa e com a tentativa de manter a nossa autoestima: o efeito MUM.

“A pessoa humilde exerce influência sobre os demais, seja para o bem ou para o mal”.
-Henry Ward Beecher-

Desconfiança no relacionamento

O que é o efeito MUM?

O efeito MUM acontece quando, na hora de comunicar más notícias, apresentamos resistência, chegando inclusive a distorcer e maquiar as informações para que não sejam negativas. Ou seja, envolve um certo temor em comunicar más notícias por medo de ficarmos associados a elas (tendo ou não alguma coisa a ver com as notícias, no fim das contas). Por sua vez, esse medo é fundamentado no medo de sermos vistos como menos atrativos.

Esse efeito acontece diante de todo tipo de notícia, sempre que forem negativas (como no falecimento de alguém, em algum acidente, em alguma situação médica crítica ou prejudicial, etc.). Além disso, o efeito MUM acontece diante de todo tipo de circunstâncias e possíveis receptores da notícia (sejam familiares, amigos, um parceiro, etc.).

Embora trate-se de um fenômeno muito frequente, não podemos dizer que seja universal. Um claro exemplo disso pode ser visto nos mitos, nos boatos e nos jornais: você não tem a sensação de que eles sempre transmitem más notícias?

Como isso nos afeta?

Como podemos deduzir a partir do que foi mencionado acima, embora o efeito MUM exista e seja frequente, não é universal. Ele é comum nos casos em que as notícias condicionam ou se referem ao nosso bem-estar ou ao bem-estar do receptor ou receptores das notícias. Como isso nos afeta?

Basicamente, da seguinte forma: ao precisar comunicar uma má notícia, apresentamos resistência ou modificamos a mensagem, de forma consciente, para que a notícia não pareça tão negativa. Isto acontece, como tínhamos dito antes, pelo medo de sermos associados a ela (como se tivéssemos algo a ver com sua causa, mesmo que isso seja totalmente irracional).

Aqui, nós devemos esclarecer que os profissionais que enfrentam diariamente o desafio de comunicar más notícias (como médicos, por exemplo) certamente possuem uma maior resistência ao efeito e não modificam a sua mensagem. Afinal, isso faz parte do seu trabalho e eles não podem distorcer a realidade, o que não significa que não sofram comunicando más notícias.

No fim das contas, somos todos humanos e é normal sentir este medo, mal-estar ou incômodo. Quem quer comunicar notícias negativas? Provavelmente ninguém. Assim, com o efeito MUM, estaríamos tentando “compensar” o nosso próprio medo e mal-estar, além da possível dor que estaríamos causando aos demais ao comunicar o ocorrido.

Causas do efeito MUM

Como este fenômeno acontece? Já dissemos que ele tem a ver com o medo de sermos considerados menos atrativos, mas quais são as causas subjacentes? Por que desejamos nos sentir atrativos para os demais?

Algumas das teorias que falam sobre isso são as teorias do reforço (Lott e Lott, Byrne). De acordo com estas teorias, existe uma atração por pessoas que estão presentes ou que fazem algo que ativa um afeto (seja ele positivo ou negativo). Além das teorias do reforço, ser apreciado pelos demais é um interesse universal.

Por outro lado, há um viés cognitivo que afeta nossa visão da realidade: a chamada “crença em um mundo justo”. Através dela, temos a ideia irracional de que o curso dos acontecimentos deve ser justo com todos os envolvidos (ou “que cada um tem o que merece”). Esta falsa crença também poderia explicar o fato de resistirmos a dar más notícias àqueles que achamos que “não as merecem”.

Por que não queremos dar más notícias?

Retornando ao efeito MUM e ao que estávamos comentando, a realidade é a seguinte: ninguém gosta de dar más notícias. Mas, por quê? Algumas das causas que explicam por que é difícil dar más notícias e que são apoiadas pelas pesquisas científicas são as seguintes:

  • Nos preocupamos com o nosso bem-estar e, consequentemente, queremos evitar nos sentir culpados ao comunicar uma má notícia.
  • Não queremos prejudicar os demais (e isso seria explicado, em grande parte, pela empatia).
  • Utilizamos certas normas sociais como guias na hora de nos comportar (temos uma série de ideais sobre “como fazer as coisas da forma correta”).
  • Ficamos preocupados (ou com medo) de ficarmos associados à má notícia que precisamos dar (e, assim, nos tornarmos menos atrativos para os demais).
Casal em crise

Não há fórmulas mágicas para dar más notícias

Não existem regras válidas que nos digam como agir o tempo todo. Acontece a mesma coisa com as más notícias: não existe um protocolo perfeito nem uma fórmula mágica para comunicá-las que atenue por completo o seu impacto negativo.

No entanto, existe o Protocolo Baile-Buckman, publicado em 2006 na Revista Medicina Intensiva, que oferece algumas ideias práticas a respeito de como fazer isso.

Sim, é provável que o efeito MUM sempre exista devido à tendência humana que temos de querer evitar o dano aos demais. Esta tendência, em grande parte, seria explicada pelo desejo de sermos aceitos e de manter uma boa autoestima. Além disso, a empatia também tornaria esse fenômeno compreensível.

Definitivamente: gostamos de dar boas notícias, e não ruins, porque gostamos de ser associados com coisas boas!

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  • Álvaro, J. L., Garrido, A. & Torregrosa, J. L. (1996). Psicología Social Aplicada. Madrid: McGraw-Hill.
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