Elisabeth Kübler-Ross: a psiquiatra que nos deu lições sobre a morte

Passamos a ver as coisas com mais clareza quando chegamos ao final da vida. Elisabeth Kübler-Ross não só nos deixou um valioso legado para entender a morte, mas também introduziu as técnicas de cuidados paliativos para dar dignidade àqueles que estão prestes a morrer.
Elisabeth Kübler-Ross: a psiquiatra que nos deu lições sobre a morte

Última atualização: 24 Novembro, 2020

Elisabeth Kübler-Ross foi uma psiquiatra que mudou a forma como o ocidente observava, tratava e entendia a morte. Ela humanizou a morte e introduziu os cuidados paliativos para acompanhar pacientes terminais. Nos ensinou, também, a enfrentar a morte com sua célebre teoria sobre as fases do luto, e nos lembrou de que esse final, ou o lugar para o qual todos caminham, não é tão terrível assim. Ela nos deixou um legado indiscutível, que continua muito presente hoje em dia.

De origem suíça, ela recebeu o título de Honoris Causa em 28 universidades. Em um documentário que mostrou grande parte de seu trabalho, o mundo pôde ver como a doutora Ross acompanhava os últimos momentos de pessoas moribundas e também de crianças com doenças terminais. Sua sensibilidade era absoluta e a forma como ela proporcionava alívio e até mesmo esperança àqueles que iam e ficavam fez história.

Ela começou a ser chamada de “A mãe da morte”, mas, na verdade, foi a “Mãe da vida”. Porque se tem algo que ela nos ensinou, foi a entender que a perda humana faz parte da nossa existência. O segredo está em aproveitar ao máximo cada um dos nossos dias, aprendendo  a dar dignidade aos instantes nos quais as pessoas estão em seu processo de mudança de plano. Um processo que, segundo a própria doutora, é cheio de amor e luz.

“Os moribundos sempre foram mestres de grandes lições, pois quando nos vemos no final da vida, passamos a vê-la com maior clareza. Ao compartilhar suas lições conosco, as pessoas no leito da morte nos ensinam muito sobre o imenso valor da vida em si.”
– Elisabeth Kübler-Ross-

Elisabeth Kübler-Ross jovem

Elisabeth Kübler-Ross: a mulher que traçou sua própria carreira como psiquiatra

“Você pode ser secretária ou empregada na casa de alguém, mas nunca fará medicina”. Isso foi o que o pai de Elisabeth Kübler-Ross disse quando, com pouco mais de 8 anos de idade, ela disse a ele que seu sonho era ser médica. Elisabeth nasceu em 8 de julho de 1926, em Zurique, e era a menor e mais frágil de trigêmeos, mas isso não a impediu de sair de casa aos 16 anos. A resistência paterna não colocaria barreiras em seus desejos, e ela seguiu seu próprio caminho em solidão.

Trabalhou como voluntária durante a Segunda Guerra Mundial, ajudando em hospitais e cuidados dos refugiados. Após a guerra, conseguiu obter seu diploma de medicina pela Universidade de Zurique e conheceu um médico norte-americano. Casou-se com ele e logo se mudaram para os Estados Unidos, onde Elisabeth se especializou em psiquiatria pela Universidade do Colorado.

A necessidade de dar dignidade às pessoas em seu leito de morte

Quando a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross chegou aos Estados Unidos, ficou impactada com a falta de atenção psicológica dada às pessoas com doenças terminais, principalmente às crianças. Também tomou ciência da falta de cuidado e sensibilidade com os moribundos, pessoas que estavam em seu leito de morte. Tentou mudar aquilo tudo, e o que ela começou ali foi uma revolução necessária.

  • Foi pioneira ao estabelecer as bases modernas dos cuidados paliativos. Em seu livro “Sobre a morte e o morrer”, de 1969, apresenta o modelo Kübler-Ross, que começaria a ser aplicado em diversos hospitais.
  • Ela também introduziu uma nova disciplina na Universidade de Chicago, na qual ensinava a compreender o processo de morte e a necessidade de apoiar as pessoas com doenças terminais. Naquelas aulas, pessoas doentes, que tinham pouco tempo de vida, eram procuradas para dar seu depoimento.

Graças a estas aulas, ela estabeleceu e definiu as etapas pelas quais um doente terminal passa: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

“Depois de cumprirmos a tarefa que viemos realizar na terra, podemos deixar nosso corpo, que aprisiona nossa alma, assim como o casulo de seda que envolve a futura borboleta. Chegado o momento, podemos ir embora e nos ver livres da dor, dos temores e preocupações. Livres como uma belíssima borboleta…”
– Elisabeth Kübler-Ross –

O cuidado das famílias e o luto pela perda

Em sua carreira como psiquiatra, Elisabeth Kübler-Ross ajudou milhares de famílias. Ela fez isso ensinando-lhes estratégias para acompanhar de forma digna a pessoa em agonia, em seu leito de morte, e a lidar com a perda uma vez que esta pessoa tenha falecido. O clássico modelo de luto facilitava o poder de lidar com as emoções que surgem por meio dessas experiências.

Da mesma forma, seu trabalho e inspiração favoreceram a criação de vários fundamentos para promover uma morte digna. Ela tentou até mesmo criar um hospital para crianças afetadas pela AIDS, mas por aqueles serem os primeiros anos da epidemia, encontrou muitas críticas e impedimentos para realizar este feito.

A doutora Kübler-Ross escreveu mais de 20 livros sobre a morte e viajou pelo mundo compartilhando seus conhecimentos nos workshops “Vida, morte e transição”. A renda que obtinha disso era totalmente investida na organização de retiros para ajudar pessoas a superar suas perdas, a lidar com suas doenças, medos e angústias relacionadas ao fim da vida.

Cuidados paliativos

Kübler-Ross: a morte como um amanhecer, um transporte para outra etapa

Um de seus livros mais polêmicos foi, sem dúvida, “A morte: um amanhecer”. Elisabeth tinha uma ideia muito específica: a morte é, simplesmente, passar para um novo estado de consciência. É transcender a um estado cheio de amor e bem-estar indescritível, cheio de luz. A partir daí, se inicia, de acordo com o olhar da doutora, uma viagem de crescimento espiritual.

Esta visão foi criticada pela comunidade científica. A verdade é que seus modelos de cuidados paliativos e de enfrentamento da perda e das doenças foram muito bem recebidos e promovidos. Porém, o aspecto relativo à visão mais íntima e espiritual sobre o que a morte era para ela não foi bem recebido.

Apesar disso, são muitas as pessoas que apoiam essa ideia e que se sentem reconfortadas com essa visão, essa perspectiva. Suas tranquilizantes e esperançosas lições sobre a morte e a vida continuam, sem dúvida, muito presentes nos dias de hoje.

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  • Kübler-Ross, Elisabeth (2005) La muerte un amanecer. Luciérnaga
  • Kübler-Ross, Elisabeth (2001) Sobre la muerte y los moribundos. Luciérnaga
  • Kübler-Ross, Elisabeth (199) Sobre la muerte y el dolor. Luciérnaga
  • Kübler-Ross, Elisabeth (2003) La rueda de la vida. Luciérnaga