Endocanabinoides, substâncias químicas cerebrais semelhantes à maconha

Embora os endocanabinoides estejam presentes na planta da maconha, na verdade o cérebro também produz essas substâncias. Graças a elas modulamos o prazer, a dor e até o impacto do estresse. 
Endocanabinoides, substâncias químicas cerebrais semelhantes à maconha

Última atualização: 30 Junho, 2021

Memória, descanso, reprodução, prazer e até a regulação do estresse…  Os endocanabinoides são moléculas fascinantes que o corpo produz para modular o sistema endocanabinoide (SECB). Se afirmássemos agora mesmo que uma grande parte do organismo está “inundada” por essas substâncias químicas, algumas pessoas poderiam ficar um pouco surpresas e preocupadas.

Quando se trata de biologia e neuroquímica, nada é por acaso. Essas pequenas substâncias são uma peça-chave nos sistemas de recompensa do cérebro. Graças a elas, realizamos múltiplos processos cotidianos e qualquer desequilíbrio em sua produção pode alterar completamente o nosso bem-estar. Nesse sentido, estudos recentes mostram como qualquer alteração nos endocanabinoides pode influenciar os processos de estresse e ansiedade.

Também é interessante saber que, embora esses elementos sejam endógenos – ou seja, sejam produzidos pelo cérebro -, eles também podem ser encontrados na natureza.  De fato, a planta da maconha também contém esses produtos químicos. Porém, e essa é a informação reveladora que devemos manter em mente, todos nós já trazemos “de fábrica” nosso próprio sistema canabinoide.

Neurônios

O que são os endocanabinoides?

É verdade que os endocanabinoides estão entre os componentes ativos da planta da maconha. No entanto, como já afirmamos, o cérebro também os produz regularmente, e eles estão presentes no organismo e fluindo na corrente sanguínea.

Os endocanabinoides são basicamente moléculas de lipídios (gorduras) que têm um propósito essencial quando se trata de favorecer a comunicação entre os neurônios. Trabalhos de pesquisa como os realizados no departamento de ciências psicológicas e cerebrais da Universidade de Indiana (Estados Unidos) indicam um dado importante.

Até o momento, apenas duas tipologias dessas substâncias químicas foram identificadas, a anandamida (AEA) e 2-araquidonilglicerol (2-AG). Quando elas atuam sobre os receptores endocanabinoides, múltiplos processos básicos em nosso cotidiano são regulados, como a aprendizagem, a memória, o sono, o apetite e até o humor.

Da mesma forma, e não menos importante, essas moléculas cumprem outra função essencial. As AEAs e o 2-AG modulam os circuitos de recompensa do cérebro. Eles fazem isso ao estimular a produção de dopamina, de forma que não só regulam nossa motivação, mas também são fatores essenciais para mediar os estados de prazer.

Quais são as funções dos endocanabinoides?

Embora apenas dois tipos de endocanabinoides tenham sido identificados, a verdade é que suspeita-se de que possam existir muitos outros devido às suas múltiplas funções.

Por outro lado, para entender como eles funcionam, é importante lembrar que esses canabinoides endógenos são neurotransmissores naturais. Ou seja, eles funcionam como mensageiros químicos no corpo, enviando sinais entre as células nervosas. Vamos ver suas funções.

Regulam nossa energia

Esses componentes biológicos influenciam o descanso noturno e também a ativação. Eles são determinantes para promover o sono, mas podem ativar nossa motivação para nos fazer sentir prazer ao trabalhar por uma meta.

Estimulam o apetite

O sistema endocanabinoide central está envolvido em um amplo espectro de processos fisiológicos, sendo o apetite um dos mais importantes.

Como um dado curioso, a ciência descobriu há anos que o principal constituinte psicoativo da cannabis, o Δ9-THC, atua em nosso sistema endocanabinoide, aumentando a sensação de fome em pacientes que sofrem de anorexia ou mesmo de câncer.

Circulação sanguínea

Entre os dois endocanabinoides descobertos, o 2-AG é um dos mais importantes no cérebro, no fígado e nos pulmões. Esse endocanabinoide produz em tais órgãos o ácido araquidônico, que é usado na síntese de prostaglandinas. Graças a elas, são realizadas funções como a pressão sanguínea, a coagulação do sangue e também a resposta inflamatória alérgica.

Regulação da dor

Outro aspecto notável que vale a pena conhecer sobre o sistema endocanabinoide é que ele é uma das peças-chave na comunicação intercelular. Como se não bastasse, também está envolvido em uma ampla variedade de processos fisiológicos, como a regulação da percepção da dor, por exemplo.

Quando o cérebro detecta um processo inflamatório ou a presença de uma ferida ou batida, os endocanabinoides são imediatamente ativados para reduzir o sofrimento.

Memória e aprendizagem

A neurociência tem nos fornecido dados importantes sobre esses compostos químicos há anos. Um dos mais relevantes é saber que existem receptores endocanabinoides no hipocampo e no córtex, o que favorece os processos de memória e aprendizagem.

Casal abraçado

Os endocanabinoides e as experiências sociais prazerosas

Afirmamos no início que todo o corpo está “inundado” por essas substâncias químicas. Um estudo publicado recentemente pela Universidade de Muenster (Alemanha) divulgou uma informação destacável. Os endocanabinoides AEA e 2- AG são essenciais para o prazer que obtemos das relações sociais cotidianas.

Essas substâncias químicas endógenas facilitam a liberação de dopamina nos centros de recompensa do cérebro sempre que fazemos algo que esse órgão interpreta como socialmente positivo. Um abraço, um bate-papo com os amigos em um café, um passeio com pessoas queridas, uma brincadeira com nossos filhos…

Tudo isso inunda nossa corrente sanguínea com aqueles componentes semelhantes à maconha e que geram prazer, bem-estar e felicidade.  Não há melhor maneira de reduzir o estresse e a ansiedade do que curtir esses momentos de equilíbrio e cumplicidade com quem mais amamos.

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