A exclusão social favorece o extremismo

junho 3, 2020
Talvez seja o momento de começar a distinguir quais são os valores sagrados e quais não são. Ouvimos ou lemos muitas opiniões em defesa de ideologias políticas ou religiosas como se fossem valores sagrados, mas será que realmente queremos isso?

Um estudo pioneiro, realizado pela Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), investigou as inter-relações neurais entre valores sagrados, a exclusão social e o extremismo com manifestações violentas. Esta pesquisa mostrou que a exclusão social de um grupo de pessoas aumenta a quantidade de valores ideológicos pelos quais alguém está disposto a lutar e morrer.

Um resultado perturbador, em um momento histórico em que a exclusão social criada pela recessão econômica colocou ‘em xeque’ uma porcentagem muito alta da população, e em meio aos massivos movimentos migratórios que milhões de pessoas estão enfrentando. Segundo este estudo, o fato de ser socialmente marginalizado pode levar o indivíduo a tendências muito radicais e extremasna maneira de pensar e agir.

A pesquisa

O estudo foi realizado com técnicas de neuroimagem em jovens na Catalunha. A pesquisa foi liderada pela Universidade Autônoma de Barcelona. O Instituto de Pesquisa Médica do Hospital del Mar (IMIM) também participou em colaboração com outras instituições. O grupo de indivíduos da amostra eram jovens vulneráveis ​​à radicalização, marroquinos, residentes e estudantes na Catalunha.

Publicado na revista Frontiers of Psychology, essa pesquisa, realizada em duas fases, estudou o substrato neural dos valores que são percebidos como inegociáveis. Valores aos quais as pessoas não renunciam sob nenhuma condição. Especialmente os valores ligados à afiliação ideológica, identidade religiosa ou nacional/comunidade. Esses fatores possuem um componente de identidade que facilita ao indivíduo a percepção de pertencer a um grupo social de referência.

As imagens de ressonância magnética foram focadas no giro frontal inferior esquerdo. O resultado mostrou um aumento na atividade dessa área cerebral enquanto os jovens respondiam perguntas sobre a vontade de morrer e lutar pelos seus valores. Esta é uma área do cérebro relacionada com esse tipo de valor e com o processamento de regras.

Os meandros do cérebro

A perigosa exclusão social

Os resultados obtidos por Clara Pretus, autora principal do artigo, nos levam a pensar que a exclusão social pode provocar uma sacralização dos valores grupais. Ou seja, os valores defendidos em grupos poderiam se tornar algo sagrado, tanto ou mais que os valores pessoais. E isso parece ocorrer tanto na atividade neural quanto na vontade expressa pelos participantes do estudo.

Se pensarmos nas áreas ativadas pela defesa dos valores sagrados, este estudo nos mostra que esses tipos de valores são processados através de um raciocínio baseado no dever, “no que é preciso fazer”. Neste caso, seria dada pouca relevância à avaliação do custo-benefício, uma avaliação que é aplicada a valores considerados não sagrados, geralmente mais flexíveis e com mais oportunidades de negociação.

Polarizando os resultados

Esta pesquisa foi realizada com um grupo de pessoas muito vulneráveis à radicalização devido à sua condição de exclusão social permanente. No entanto, talvez valha a pena parar para refletir sobre por que tantas atitudes radicais surgiram em nossa sociedade nos últimos anos.

A exclusão social pode ocorrer de várias maneiras. Nós a encontramos de forma individual, mas também a suportamos em maior ou menor grau em relação ao sentimento de pertencimento que possuímos. E a verdade é que temos muitos sentimentos de pertencimento: muito mais do que podemos identificar em uma primeira análise.

Por outro lado, pesquisas recentes mostram que a exclusão social, de qualquer tipo, pode favorecer a radicalização de ideias e atitudes. Isso pode nos dizer por que tantas opiniões extremas estão aparecendo em diferentes áreas, como política ou religião.

Sombra de homem em parede

Exclusão social: revendo os valores

Talvez seja a hora de rever os valores pessoais e de grupo que cada um carrega. Na verdade, em muitos casos, eles são apenas valores herdados de uma cultura e um ambiente. Talvez seja o momento de começar a distinguir quais são os valores sagrados e quais não são.

Ouvimos e lemos muitas opiniões em defesa de ideologias políticas ou religiosas que são processadas como valores sagrados. Nós realmente queremos isso? Queremos uma sociedade em que nos excluamos uns dos outros por valores com uma profundidade questionável? Este estudo nada mais é do que uma pequena réplica em laboratório, mas nos mostra uma realidade preocupante.