O que ganhamos ao treinar a nossa memória?

13 Julho, 2020
Que benefícios podemos obter treinando a nossa memória? Como funcionam os programas criados para essa finalidade? É necessário ter a ajuda de um profissional?
 

Existem tantos estudos que apoiam essa ideia que restam poucas dúvidas: há um declínio cognitivo relacionado à idade. Nesse sentido, o que alcançaríamos ao treinar a nossa memória? Haveria benefícios? Seriam de curto prazo ou, pelo contrário, seriam mantidos ao longo do tempo?

A idade não afeta todas as pessoas ou todos os tipos de memória igualmente. Preservamos melhor a memória processual ou a memória relacionada a recordações antigas e emocionalmente intensas. Por outro lado, a memória de trabalho costuma ser a mais comprometida.

Também foram identificados problemas de atenção dividida, esquecimento de eventos recentes, uso inadequado de estratégias de codificação, omissão ou uso indevido de pistas verbais ou visuais para recuperar informações, juntamente com uma percepção negativa do seu próprio desempenho e sua possibilidade de melhorar. (Craik, 1977; Parkin, 1987; Montenegro 1998a).

Então, hoje queremos saber: o que ganhamos treinando a nossa memória?

“Uma memória exercitada é um guia mais valioso do que a genialidade e a sensibilidade”.
– Friedrich von Schiller –

O que ganhamos treinando a nossa memória?

Treinar a memória é importante?

 

O termo ‘treinamento da memória’ é um conceito moderno que há séculos é conhecido como a arte da memória. A sua primeira aparição data de Simónides de Ceos (poeta grego-468 a.C) e do método Loci.

Mais tarde, outros autores usaram termos como memória artificial e memória natural, memória com imagens, memória ligada à magia e a conteúdos filosóficos e ideológicos, etc.

O treinamento da memória revela efeitos benéficos tanto em idosos saudáveis quanto em idosos com comprometimento cognitivo. Além disso, atualmente existem muitas intervenções de memória, como reabilitação, estimulação e treinamento.

Em 1970, começaram a ser desenvolvidos vários programas e estudos voltados para o treinamento da memória para enfrentar perdas derivadas de traumatismos, demência em estágio inicial, envelhecimento, etc.

Nas intervenções atuais são usados diferentes meios, como a estimulação, a terapia em grupo, a reabilitação, a reaprendizagem ou reabilitação por computador.

No entanto, o uso de determinadas ferramentas ou outras depende das necessidades da pessoa e também dos meios e conhecimentos que o profissional possui.

“Precisamos treinar a mente da mesma maneira que aprendemos a treinar o corpo”.
– Elsa Punset –

Diferenças entre reabilitação e treinamento

Os dois termos mais comuns são reabilitação e treinamento. O treinamento consiste em ensinar de maneira sistemática o conhecimento, o uso e controle dos processos, estratégias, técnicas e experiências envolvidas no funcionamento da memória e na melhoria de seu desempenho.

 

A reabilitação consiste em intervir para recuperar um bom nível de funcionamento (pessoal, social e profissional) após uma determinada doença que provocou uma lesão ou déficit funcional.

A reabilitação é, portanto, usada com pessoas doentes, e o treinamento é um termo que pode ser aplicado a pessoas doentes e saudáveis.

O treinamento também é utilizado com pessoas que apresentam alterações que, sem ter uma doença, “podem ser objeto de atenção clínica”, como diz o DSM-V (2013): “perda de memória por idade, por deterioração cognitiva relacionada à idade”, etc “.

“A memória é a sentinela do cérebro”.
– William Shakespeare –

Como podemos treinar a nossa memória?

O treinamento da memória pode ser classificado de acordo com vários critérios (Montejo Carrasco, 2015):

  • Os conteúdos que trabalham e os objetivos propostos: unifatorais ou multifatoriais.
  • O número de pessoas com quem você trabalha: individual ou grupo.
  • Os tipos de estratégias utilizadas: estratégias internas (visualização, associação…), estratégias externas (cadernos, cores, a ordem…) e aquelas que utilizam elementos de ambos os tipos ou mistas (a maioria dos métodos).
  • O tipo de memória usada: explícita/implícita

Para pessoas mais velhas, geralmente é escolhido o treinamento em grupo. Com isso, além da memória, é possível fortalecer o contexto social, no qual os idosos também enfrentam perdas significativas: os amigos e conhecidos da mesma geração.

Além disso, a generalização para a vida cotidiana e a transferência de resultados das funções treinadas são melhores dessa maneira. Essa metodologia é preferível por causa dos efeitos que o grupo alcança. Além disso, a nível de investimento, é mais lucrativo: você pode trabalhar com mais pessoas em menos tempo.

 

“Melhoramos a memória quando a usamos e nos aproveitamos dela”.
– Juan Luis Vives –

Treinando a memória

Treinando a nossa memória

Parece que determinadas áreas do nosso cérebro são capazes, com treinamento, de acumular uma certa reserva cognitiva que nos protege contra a deterioração associada à idade.

Em sua época, a neurocientista Rita Levi-Montalcini dizia que: “a plasticidade cerebral ou neuroplasticidade permanece constante ao longo da vida; enquanto exercitarmos o cérebro”.

Assim, treinando a nossa memória, estamos fazendo um investimento lucrativo contra a deterioração cognitiva associada à idade. Os dados mais otimistas sugerem que isso pode ter um impacto positivo em 63% dos casos e atuar como fator de proteção em até um terço dos casos de Alzheimer.

 

Craik, FIM. (1977), ‘Age differences inhuman memory”. En Birren y KW. Sohaje (eds) Handbook of the Psychology of aging. New York, van Nostrand Reinhold, p. 384-4.

Montejo Carrasco, P. (2015). Estudio de los resultados de un programa de entrenamiento de memoria y estimulación cognitiva para mayores de 65 años sin deterioro cognitivo (Doctoral dissertation, Universidad Complutense de Madrid).

Montenegro, M., Monteio. E, Remeso, Al., Montes, ME., Claver, MD. (1998a). Estudio de las quejas de memoria en los mayores y los cambios producidos por un entrenamiento de memoria’, Presentado al XXII Congreso Nacional de Geriatría y Gerontología, Madrid.

Parkin,A. (1987), Memory and Amnesia: An introduction. p. 129. BIackweII, Ed. Oxford.