Não se pode olhar de frente a morte nem o sol?

O que você acha se eu lhe disser que a consciência da finitude ou da morte é uma vantagem? Vamos ver como o medo da morte se apresenta e o que fazer para que ele se torne positivo.
Não se pode olhar de frente a morte nem o sol?

Última atualização: 12 junho, 2022

Os seres humanos têm um dom precioso que também tem que pagar um alto preço: podemos pensar em nós mesmos. Qual o custo a pagar? Esse raciocínio é acompanhado pela consciência da morte.

Uma vez que tomamos consciência de nossa própria finitude, não há como voltar atrás. Assim, a ameaça de desaparecimento permanece latente. Não é fácil viver cada momento com a absoluta consciência do nosso destino: vamos morrer. É como tentar olhar diretamente para o sol, você só pode tolerá-lo por um tempo.

O medo da morte

mulher com medo

O medo da morte é uma reação emocional natural e razoável. Ele colide frontalmente com nosso instinto de sobrevivência, ao mesmo tempo em que o nutre. Esse medo assume novas formas de manifestação à medida que envelhecemos. Além disso, estamos encontrando diferentes formas de mitigar a sensação desconfortável que a morte produz em nós.

Na infância

A queda das folhas das árvores e as estações que começam e terminam são os primeiros contatos que as pessoas têm com o conceito de fim. Entre os três e os cinco anos, as crianças compreendem parcialmente a morte humana:  a entendem como reversível, acreditando que o falecido está dormindo ou fez uma viagem e retornará em algum momento.

Até os nove anos de idade, a morte é personificada sob o nome de algum personagem ou espírito e os medos típicos de fantasmas e monstros aparecem com frequência. Geralmente, entre os nove e os doze anos, as crianças conseguem entendê-la como um estado irreversível, permanente e inevitável.

Seja a morte de um avô, um animal de estimação ou um comentário isolado de um colega de classe, chega uma hora de todos os pais conversarem com seus filhos sobre a morte. Para isso, é fundamental defini-la como um processo natural e utilizar uma linguagem compreensível de acordo com sua maturidade cognitiva e emocional.

Na adolescência

Na adolescência, a angústia da morte explode com toda a sua fúria; a perda adquire totalmente a natureza de irreversível. Muitos são seduzidos pela ideia de espioná-la: fazem visitas noturnas a cemitérios, assistem a filmes de terror, participam de violentos jogos digitais e se expõem a situações de risco. Os adolescentes desafiam a morte colocando-se em perigo.

Na idade adulta

Na melhor das hipóteses, a ansiedade da morte entra em uma calmaria durante o início da idade adulta. Quando estamos ocupados trabalhando, estudando ou criando uma família, é comum não sentirmos esse medo tão presente.

À medida que nos aproximamos do auge da vida, a preocupação com a morte torna-se repetitiva e verdadeiramente desconfortável.

Mais do que medo

A tanatofobia é o tipo de fobia baseada em um terror excessivo da possibilidade de morrer. Corresponde a um transtorno de ansiedade cuja intensidade se torna tão extrema que impacta drasticamente a vida cotidiana da pessoa, a ponto de fazer com que ela evite situações sociais ou contato com qualquer objeto que seja percebido como um perigo potencial.

É por meio de uma abordagem psicoterapêutica que a tanatofobia deve ser tratada focando nos pensamentos que mantêm os sintomas da ansiedade.

homem olhando

Olhando diretamente para o fim de nossa existência

Na novela A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, o protagonista, morrendo de dor, descobre que está morrendo muito mal porque viveu muito mal. Ele entende que ao se proteger da morte, ele também se protegeu da vida. Ele então empreende uma transformação curta, mas profunda: começa a aproveitar o tempo que lhe resta.

Não basta fechar os olhos, apertar os dentes, os punhos e desejar com todas as suas forças aproveitar a vida para fazê-lo com eficácia. Nesse sentido, o conhecimento atual sobre a finitude desempenha um papel essencial.

“Não basta pensar na morte, mas ela deve estar sempre à nossa frente”. Então a vida se torna mais solene, mais importante, mais frutífera e mais alegre”.

-Stefan Zweig

Inúmeros escritores, dramaturgos, músicos e cineastas dedicaram grande parte de suas vidas à produção de obras ligadas à morte. É que de alguma forma temos que assimilar ela. E devemos admitir que a expressão artística recebe todos os aplausos quando se trata de representar o vazio e a angústia que a morte gera em nós.

Por outro lado, alguns dos doentes terminais, em vez de ceder ao desespero, transformam-se positivamente quase como uma ação reflexa. São gratos pelo que a vida lhes oferece, priorizam o importante e descartam o trivial. Eles celebram cada momento e se aproximam de seus entes queridos de uma forma inédita e profunda. Às vezes, a única maneira de começar a aproveitar a vida é ficar cara a cara com a morte.

“Embora o fato físico da morte nos destrua, a ideia da morte nos salva.”

-Irvin Yalom-

Felizmente, existem outros eventos menos extremos que podem atuar como choques de realidade e nos ajudar a acordar: o fim de um relacionamento, quando os filhos saem de casa (ninho vazio), a aposentadoria ou um aniversário significativo (trinta, quarenta, os noventa ), etc.

São todas situações que podem ser úteis para tomar consciência de nosso próprio ser, nos fazer perguntas existenciais e tomar decisões de acordo com nosso bem-estar, enriquecendo muito nossa existência. Manter a morte em mente é uma vantagem.

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Os cães são animais sociais e afetuosos. Diante da morte de um de seus companheiros ou de seu tutor, vivenciam um processo semelhante ao luto.



  • Irvin D. Yalom (2008) “Mirar al Sol. La superación del miedo a la muerte”.