O Prêmio Nobel de Medicina e os segredos do tato

Vários segredos do tato foram descobertos por alguns pesquisadores americanos. As descobertas deles são produto de anos de pesquisa sobre como obtemos informações sobre temperatura ou pressão.
O Prêmio Nobel de Medicina e os segredos do tato

Última atualização: 09 dezembro, 2021

O Prêmio Nobel de Medicina de 2021 foi concedido aos doutores David Julius e Ardem Patapoutian por uma impressionante pesquisa sobre os segredos do tato. Embora este não seja um dos sentidos mais valorizados em um mundo cada vez mais visual, a verdade é que o tato é uma verdadeira maravilha da natureza.

O homem sempre se perguntou como funcionam os sentidos, desdeos tempos remotos. A atenção sempre esteve mais concentrada na visão e na audição, pois através deles estabelecemos um vínculo mais evidente com o nosso entorno. Por esse motivo, os segredos do tato permaneceram um enigma até muito recentemente.

No século 18, René Descartes se aventurou a dizer que existia uma espécie de rede na pele que cumpria a função de enviar informações da pele para o cérebro. Ele acertou a parte básica, mas não apresentou evidências ou explicações detalhadas que permitissem abrir uma linha de investigação para a sua hipótese. A humanidade ainda teve que esperar dois séculos para que os segredos do tato começassem a ser revelados.

As descobertas revolucionárias (…) dos ganhadores do Nobel deste ano nos permitiram entender como o calor, o frio e a força mecânica podem dar início aos impulsos nervosos que nos permitem perceber e nos adaptar ao mundo“.

– Jurado do Prêmio Nobel de Medicina de 2021-

Mão na madeira.

Uma investigação em andamento

Durante o século XIX e as primeiras décadas do século XX, o caminho para revelar os segredos do tato foi avançando lentamente. Antes da década de 1940 já se sabia que existiam neurônios sensoriais, cuja função era registrar algumas mudanças no ambiente e transmiti-las ao cérebro a partir da pele.

Em 1944, aconteceu o primeiro marco nesse assunto: dois pesquisadores chamados Joseph Erlanger e Herbert Gasser descobriram que haviam fibras nervosas especializadas em detectar e traduzir para o cérebro os estímulos associados ao tato. Eles verificaram que essas células permitiam, por exemplo, distinguir texturas ásperas de suaves, entre outros aspectos.

Erlanger e Gasser ganharam o Prêmio Nobel de Medicina por essas descobertas. No entanto, vários dos segredos do tato ainda estavam ocultos. O mecanismo pelo qual fenômenos como temperatura ou pressão eram traduzidos em sinais elétricos que então viajavam pelo sistema nervoso era desconhecido.

Os segredos do tato

David Julius, um bioquímico americano da Universidade da Califórnia, em San Francisco, decidiu mergulhar nos segredos do tato no final dos anos 1990. Já nessa época era conhecida uma substância chamada capsaicina, que gera a sensação de ardência da pimenta.

Essa substância provoca a sensação de ardência e dor na pele, mas causas para isso eram um enigma. O que Julius e sua equipe fizeram foi criar uma biblioteca gigantesca de genes presentes nas células sensoriais. Todos elas tinham potencial de reagir ao calor e à dor.

Os pesquisadores partiram da ideia de que alguns desses genes deveriam reagir à capsaicina. Depois de uma longa busca, eles encontraram um gene que dava origem a uma proteína. Esta, por sua vez, ativava um receptor (parte da célula que detecta o que está a seu redor) que recebeu o nome de TRPV1.

Em seguida Julius quis descobrir se essa proteína tinha a capacidade de responder ao calor e descobriu que, de fato, essa resposta acontecia. Portanto, ele havia descoberto um receptor de calor, o que abriu caminho para a descoberta de receptores semelhantes e permitiu desvendar o mecanismo pelo qual eles operavam.

Molécula de capsaicina.
Molécula de capsaicina.

Pressão: outro dos segredos do tato

Ardem Patapoutian, biólogo de uma entidade chamada The Scripps Research, por sua vez, realizou vários experimentos para descobrir os receptores que se tornavam ativos sob pressão. Ou seja, aqueles que permitem distinguir, por exemplo, superfícies rugosas e diferenciá-las das lisas, entre outros aspectos.

Foi assim que ele descobriu os genes Piezo1 e Piezo2 que, quando não estavam presentes, tornavam o corpo insensível a perfurações. Em seguida ele descobriu que o Piezo2 é fundamental para o tato, mas também para outro sentido chamado propriocepção, que está associado à posição e movimento do corpo.

Além da relevância de todas essas descobertas para desvendar os segredos do tato, elas também se tornaram uma base para outras pesquisas destinadas a encontrar novas soluções para a dor física. Por isso Julius e Patapoutian receberam o Prêmio Nobel, já que suas descobertas abrem uma porta de esperança para a humanidade.

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  • Castro Alonso, P. L. (2021). El tacto, los ojos de la piel. The conversation.