Por que existem pessoas das quais desconfiamos sem conhecê-las?

Por que existem pessoas das quais desconfiamos sem conhecê-las?

maio 31, 2017 em Psicologia 1957 Compartilhados
Por que existem pessoas das quais desconfiamos sem conhecê-las?

Às vezes acontece, desconfiamos de uma pessoa sem conhecê-la em profundidade. É como uma voz interior que sussurra “afaste-se”, como um vento frio que nos empurra para ir no sentido oposto guiados por esse instinto que, como um impulso biológico, nos coloca em estado de alerta.

Este tipo de sensação que acaricia a superfície da mente, quase como um dedo gelado tocando as costas, tem pouco de sobrenatural. Também não é um ato de precognição, nem um “radar” de sabedoria adquirido geneticamente por parte de nossos ancestrais. Na verdade, trata-se de um simples mecanismo de sobrevivência.

Desconfiar de tudo e de todos por medo de se enganar novamente nos impede de viver em plenitude.
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Fica claro, contudo, que às vezes essa voz interior falha, que a primeira impressão nem sempre acerta e que há quem peque em excesso ao confiar no seu “suposto” instinto. Mas, se existe uma coisa para a qual o nosso cérebro está preparado é para antecipar riscos, e por isso, para evitarmos danos físicos ou psicológicos, eleva este eco sutil arraigado em nosso subconsciente que nos diz uma coisa tão simples como: “vá embora”.

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Você me lembra alguém que me prejudicou

Helena tem 32 anos e vai com seu filho e seu companheiro à consulta do cardiologista infantil. O seu pequeno tem 5 anos e padece de uma doença cardíaca que precisa de uma supervisão médica trimestral. Ao entrar na consulta, um novo doutor lhes estende a mão e aos poucos começa a reconhecer o menino.

Helena não demora a sentir uma estranha sensação enquanto observa mais de perto o médico. Há alguma coisa nele que não lhe agrada. O seu jeito de rir incomoda, com jeito de careta falsa. Também não gosta do jeito como brinca com seu filho, como se move, como respira e ainda menos o jeito do seu cabelo: engomadinho para trás.

Durante os 20 minutos da consulta esta mãe não ouviu o que o profissional lhes explicou: ela não precisa disso. Tanto é assim que ao se despedir e deixar o consultório, ela diz para o seu companheiro que irão mudar de médico imediatamente. Essa visita irá se repetir com outra pessoa diferente, com outro cardiologista.

Quando o seu companheiro lhe pergunta o motivo, ela simplesmente responde que ele “não transmite confiança”. Ele não diz mais nada, pensa que parece bom ter outra opinião e vai procurar outro profissional. Contudo, Helena guarda para si a verdadeira razão dessa desconfiança. Essa mulher esconde um pedacinho da sua vida que ainda não se atreveu a revelar…

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Quando tinha 9 anos de idade, os pais de Helena se separaram e ela ficou morando com sua mãe e o companheiro dela. Dois meses depois de começar a convivência, aquele homem de sorriso de cera e cabelo engomado para trás começou a maltratá-las. No fim de um ano, sua mãe parou de sair de casa, um pesadelo obscuro e com sabor de lágrimas que ela não quer relembrar, e que acabou quando ela mesma contou para seus professores da escola tudo que estava acontecendo.

Desconfiamos porque a amígdala continua controlando o nosso comportamento

O mais provável é que o cardiologista infantil que atendeu Helena fosse um profissional impecável e uma pessoa excepcional. Contudo, o cérebro desta mulher o identificou de forma hostil por causa de uma experiência prévia traumática. O que rejeitamos, cada coisa que evitamos ou que nos incomoda, fala muito de nós mesmos: nos define.

Nosso trajeto existencial se incorpora de forma implacável no inconsciente e nessas estruturas cerebrais associadas à memória emocional, como o hipocampo. Contudo, o ser humano dispõe de uma região cerebral que controla todos e cada um de nossos julgamentos rápidos: a amígdala.

Todas essas reações “viscerais” que vivenciamos nas nossas vidas e que nos impulsionam a adotar uma conduta de fuga ou evasão são controladas por esta glândula localizada nas profundezas de nossos lóbulos temporais. As ações que executamos com base nelas não são racionais e respondem somente a uma força motora implacável e automática: o instinto de sobrevivência.

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Devemos obedecer a essa voz interior que nos diz “fuja” ou “desconfie”?

Uma coisa que os psicoterapeutas sabem bem é que a pessoa que não se deixa “sequestrar” pelo poder da amígdala é alguém que desenvolveu um bom autocontrole para não viver mais com medo. Agora, será que isto significa que não devemos ouvir essa voz interior que de vez em quando nos recomenda desconfiar de alguma coisa ou de alguém?

“A única coisa realmente valiosa é a intuição.”
-Albert Einstein-

A seguir apresentamos alguns dados para você refletir:

  • Daniel Goleman explica no livro “O cérebro e a Inteligência Emocional” que toda reação natural na qual experimentarmos medo ou inquietação é controlada pela amígdala. Ignorar essa emoção ou silenciá-la não é recomendável, assim como também não é bom se deixar levar de forma visceral.
  • O correto é ouvir essa voz com atenção. Todas as pesquisas relacionadas ao sexto sentido apontam que as pessoas que ouvem esses palpites ou sensações emitidas diretamente pelo inconsciente ou por estruturas tão primitivas quanto a amígdala costumam dar respostas mais eficazes.
  • Isso ocorre por um motivo muito simples: porque “ouvir” não implica “obedecer”, mas sim dar início a um processo de análise e de reflexão apropriado.

Se alguém não nos agrada, esses motivos estão relacionados a nós mesmos: talvez porque nos lembrem de alguém que conhecemos no passado e cujo padrão comportamental se repete, talvez porque pressentimos que os seus valores não se adequam aos nossos ou talvez porque a nossa própria experiência nos permitiu saber quem é para confiar e quem não…

Seja como for, a única coisa que precisamos fazer é não nos deixarmos dominar pelo temor e a desconfiança constantes. Toda reação inteligente tem como maravilhoso fator a intuição e a reflexão.

Vamos colocar isso em prática?

Imagens cortesia de Forsa Ken (Chaperon Rouge)

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