Por que ficamos irritados quando estamos com fome?

Nossa pele não fica verde como a do Hulk, mas quase. Quando a fome bate no estômago, nossas emoções mudam e surge um mau humor, falta de paciência, tudo frustra e incomoda... Qual é a causa desse fenômeno?
Por que ficamos irritados quando estamos com fome?

Última atualização: 13 julho, 2022

A ciência é dispensável para identificar certas associações que são muito evidentes. Por exemplo, a fome deixa quase todos irritados. Assim, e embora seja verdade que alguns o escondam melhor, basta observar as crianças.

Elas choram e mostram padrões de comportamento negativos quando estão com fome. Até que possam expressar por si mesmos o que lhes acontece, esse instinto básico é vivido de forma intensa, dolorosa e perturbadora. Agora, também adultos, e independentemente da nossa idade, somos arrastados por essas emoções desconfortáveis.

Não só o borborigmo aparece. Além disso, sentir fome pode desativar nossa intenção de administrar a frustração ou a raiva de forma inteligente. Ou seja, estamos diante de um fenômeno muito comum, mas também único, e que merece uma análise profunda.

Algumas das reações agressivas pontuais experimentadas no trabalho podem ser orquestradas pela fome

Mulher irritada cobrindo a cabeça com uma almofada simbolizando Por que estamos de mau humor quando estamos com fome?
Nosso cérebro precisa de “combustível” para poder regular as emoções. Quando ele não tem contribuições de energia, ele não domina a raiva

Por que ficamos com raiva quando estamos com fome? Estas são as causas

Muitas vezes voltamos para casa depois de um longo dia de trabalho, com raiva. E esse desconforto nem sempre tem a ver com o que aconteceu no ambiente de trabalho. Nós nos sentimos ficamos irritados porque não comemos há horas.

Ficar muito tempo sem que nosso corpo tenha obtido nenhum nutriente tem um efeito claro em nosso cérebro. De fato, é importante saber, antes de tudo, que é o próprio cérebro que sonda continuamente as reservas energéticas e nutricionais do nosso corpo. Quando ele descobre que os níveis estão baixos, ativa aquela sensação fisiológica crucial: a da fome.

Da mesma forma, é comum que apareça outro fenômeno, que é a impossibilidade de regular os estados emocionais quando temos muito apetite. Não há energia para isso, de modo que estados como irritabilidade, raiva ou frustração são vivenciados com mais intensidade, podendo levar a estados como a raiva. Em situações de fome profunda é muito difícil controlar nossa negatividade.

Embora nosso cérebro represente apenas 2% do nosso peso corporal, ele usa de 20% a 30% de toda a nossa energia.

A chave está na queda da glicose

Um estudo realizado na Universidade de Guelph, no Canadá, analisou a relação entre a fome e o nosso humor. A explicação para esse fenômeno está na queda do nível de glicose. Quando os níveis dessa fonte de energia básica para o cérebro são reduzidos, o desconforto emocional se instala.

A hipoglicemia, portanto, é um fator decisivo para o aparecimento de estresse fisiológico e psicológico. E essa é uma realidade que afeta tanto as pessoas quanto os animais. Essa mudança nas emoções também orienta o comportamento para uma maior desinibição e até agressividade, o que facilita o instinto de caça no mundo animal.

No universo humano, muitos de nós já presenciamos mais de uma discussão nos ambientes de trabalho. Quando os dias são muito longos e a hora de ir comer atrasa, o clima emocional pode ser muito adverso.

Fome, ansiedade e desejo por alimentos não saudáveis

Se nos perguntarmos por que ficamos irritados quando estamos com fome, também podemos acrescentar outra pergunta. Por que muitas vezes, quando estamos com fome, muitas vezes desejamos alimentos não saudáveis? Bem, é importante lembrar que o cérebro, embora ocupe apenas 2% do nosso peso total, é um órgão muito exigente. Ele gasta 30% da nossa energia.

Quando passamos várias horas sem fornecer um suprimento adequado de energia, surgem estresse, desconforto e ansiedade, como já sabemos. E se há algo que a ansiedade precisa, é uma oferta rápida e intensa de alimentos que geram altas doses de dopamina, e isso é fornecido instantaneamente pela chamada junk food.

Não há nada tão agradável para aliviar o mau humor como uma pizza, um pacote de batatas fritas, um hambúrguer com muitos molhos… No entanto, esses alimentos ricos em gorduras saturadas são viciantes. Depois de algumas horas, o cérebro nos chamará a atenção novamente; ele nos informará que está com fome novamente.

Para evitar quedas de glicose, é sempre aconselhável comer um pedaço de fruta entre as refeições.

Mulher comendo pizza simbolizando Por que estamos de mau humor quando estamos com fome?
O alívio do desconforto proporcionado por alimentos calóricos e pouco saudáveis, como a pizza, é temporário. Pouco a pouco a fome surge novamente

Há quem gerencie melhor seu estado emocional quando aparece a fome: por que será?

Muitos ficam irritados quando estão com fome. Outros, no entanto, não veem seu humor afetado. Devemos saber que, na realidade, os processos químicos e neurais são complexos e variam muito de uma pessoa para outra.

Há quem mostre um padrão emocional sempre calmo e relaxado. Outros, por outro lado, quando estão com fome, apresentam maior dificuldade em controlar o mau humor e são, sem dúvida, os mais complexos. Agora, o que acontece em todos os casos, quando bate a fome, é maior cansaço e menor eficiência cognitiva. É difícil pensar, manter a atenção, ser criativo…

Nenhuma experiência é apreciada quando estamos com fome. E isso porque esse instinto é o mais primário, o mais básico do ser humano. Afinal, nossa sobrevivência depende disso…

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  • Thomas Horman, Maria Fernanda Fernandes, Yan Zhou, Benjamin Fuller, Melissa Tigert, Francesco Leri. An exploration of the aversive properties of 2-deoxy-D-glucose in rats. Psychopharmacology, 2018; DOI: 10.1007/s00213-018-4998-1
  • Swami V, Hochstöger S, Kargl E, Stieger S. Hangry in the field: An experience sampling study on the impact of hunger on anger, irritability, and affect. PLoS One. 2022 Jul 6;17(7):e0269629. doi: 10.1371/journal.pone.0269629. PMID: 35793289; PMCID: PMC9258883.