Quando os filhos rompem o relacionamento com os pais

· junho 5, 2019
Quando os filhos rompem o relacionamento com os seus pais, pode haver uma boa justificativa: uma história de abusos, antagonismo nos valores... No entanto, isso nem sempre é verdade. Devemos aceitar que também existem filhos que agem de forma egoísta.

Quando os filhos rompem o relacionamento com os pais, estes nem sempre entendem o motivo. É claro que ninguém é perfeito. No entanto, há pais e mães que, sem dúvida, não merecem o amor dos seus filhos.

Além disso, há também filhos que, sem qualquer justificativa, optam por ‘virar a página’, manter distância e deixar um doloroso silêncio diante de uma família desnorteada e desolada.

Este é, sem dúvida, um assunto complicado que apresenta diferentes abordagens. Embora ainda não tenhamos dados estatísticos sobre o número de famílias em que pais e filhos estão separados, deve-se notar que, na prática clínica, esse é um dos problemas mais comuns. Ser pai ou mãe é difícil; e ser filho também.

Por outro lado, há um fator que devemos destacar. Dentro da literatura mais popular, é comum encontrarmos a imagem de mães tóxicas, pais autoritários e famílias disfuncionais que dão origem a crianças claramente infelizes. É uma realidade inegável que ninguém pode questionar.

No entanto, um aspecto do qual não se fala muito é o dos filhos que, de um dia para o outro, deixam de ter contato com os pais. Além disso, existem filhos adultos com comportamentos adversos e debilitantes para as suas famílias.

Às vezes, pode haver um distúrbio psicológico por trás, é claro, mas isso não acontece em 100% dos casos. É um problema que muitos pais enfrentam mesmo em idades muito avançadas.

“Um pai prudente é aquele que conhece o seu filho”.
– William Shakespeare –

Relacionamento com os pais

Por que os filhos rompem o relacionamento com os pais?

Para explicar a razão pela qual os filhos rompem o relacionamento com os seus pais, devemos considerar que isso costuma ser influenciado pelo contexto cultural e social.

Se compararmos o modelo anglo-saxão com o japonês, por exemplo, veremos como os valores culturais das famílias estão distantes um do outro. Portanto, o contexto influencia, mas também a personalidade e as dinâmicas internas que ocorrem dentro de cada lar.

Dessa forma, estudos como o publicado em The Journals of Gerontology pelos Drs. Glenn Deane e Glenna Spitz, nos mostram algo interessante. A razão pela qual os filhos rompem o relacionamento com os pais nem sempre responde a um único fator.

Não há fatores conclusivos porque, às vezes, fatos como a relação com os parceiros dos filhos ou até mesmo a relação entre irmãos também influenciam.

No entanto, podemos partir de dois fatos claros e óbvios. O primeiro é que a distância entre pais e filhos é devida a um elo complexo entre um e outro. A segunda questão está relacionada à personalidade dos filhos ou às circunstâncias que os cercam. Vejamos os dados abaixo.

O peso de uma educação e um ambiente problemático

Quando pensamos no motivo pelo qual os filhos rompem o relacionamento com os pais, há indubitavelmente o peso de um passado em que o desapego, a humilhação, a falta de apoio, a crítica ou o autoritarismo estavam presentes. Dessa forma, quando falamos com esses filhos adultos para entendermos o porquê dessa distância e a necessidade de cortar esse vínculo, encontramos os seguintes motivos.

  • Eles acreditam que os seus pais (ou um deles) não exerceram a paternidade ou maternidade corretamente.
  • As feridas traumáticas que carregam tornam a reconciliação impossível. Manter distância é, frequentemente, um exercício de saúde.
  • Muitas vezes, há uma distância clara entre os valores de um e outro. Isso não seria uma razão por si só para estabelecer uma ruptura total no contato. No entanto, quando os pais não respeitam as ideias ou o modo de vida do filho e existem sanções, críticas e reprovações contínuas, eles podem optar por um afastamento mais drástico.

Filhos que não amam os seus pais: o silêncio da incompreensão

Há filhos e filhas que, num dado momento, escolhem interromper o contato com os pais. Esse silêncio causa angústia e incompreensão nos pais que não conseguem entender essa situação. No entanto, esta decisão não surge de um dia para o outro. Muitas vezes, há uma longa história de problemas em que essa saída ou essa escolha não é nova. Vamos analisar abaixo quais razões podem estar por trás disso:

  • Estilo de personalidade: existem pessoas com comportamentos problemáticos que escolhem cortar os laços com os pais. No entanto, os dados nos dizem que essa distância geralmente não é permanente.
  • Problemas psicológicos ou vícios: essas dimensões são fatos de grande importância que devem sempre ser levados em conta. Às vezes, os filhos escolhem sair de casa ou deixar de se comunicar com os pais por causa do consumo de certas substâncias e também de distúrbios psicológicos.
  • Ressentimentos não resolvidos: podem ser outro fator que, às vezes, marcam distâncias entre os membros de uma família. Os problemas econômicos, os problemas entre irmãos, as discussões, os mal-entendidos ou a sensação de que em determinado momento o filho não recebeu o apoio que esperava dos seus pais podem marcar uma distância intransponível.
  • Relacionamentos de casal: este é, sem dúvida, outro fator que devemos considerar. Às vezes, os filhos começam relacionamentos que criam um distanciamento em relação à família. É uma ocorrência comum em relacionamentos dependentes onde um membro acaba controlando (e isolando) o outro para separá-lo do seu apoio emocional.
Rapaz triste

O que podemos fazer quando os filhos rompem o relacionamento com os pais?

As razões pelas quais os filhos rompem o relacionamento com os pais são, como vimos, muito variadas. Cada realidade é única e cada família tem características próprias. Haverá casos, sem dúvida, em que a distância é prudente e até necessária para determinadas pessoas (especialmente se a coexistência é traumática e existe um passado de abusos).

Agora, algo que recomendamos em todos os casos é a comunicação. Se um filho precisa estabelecer distância do núcleo familiar de origem, deve declarar as razões que o levaram a essa decisão. Algo assim nos obriga a procurar soluções, a chegar a acordos para ambas as partes. Nestes casos, é sempre aconselhável procurar a ajuda de profissionais especializados.

Por outro lado, algo que também é recomendado no caso de pais e mães com filhos problemáticos é que sejam pacientes. Na maioria das vezes, os filhos voltam para retomar o contato. São realidades muito difíceis que você precisa saber como entender individualmente, de perto e de forma compreensiva.

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