A simplicidade também é uma virtude intelectual

28 Setembro, 2020
As pessoas simples não demonstram humildade apenas com seus atos. Essa virtude parte do pensamento e da flexibilidade de quem reconhece que não sabe de tudo, que é preciso abrir espaço para a escuta e para a compreensão, sem deixar espaço para o egoísmo.

A simplicidade também é uma virtude intelectual. Afinal, todos nós agimos de acordo com o que pensamos e muitos de nós já conheceram pessoas orgulhosas de espírito e de coração, pessoas que interpretam a humildade como o idioma russo, algo indecifrável e que não vale a pena utilizar. No entanto, por que esse tipo de egocentrismo é tão recorrente?

Esta não é uma pergunta aleatória nem um lamento aos ventos. Ultimamente as vozes que reafirmam que nossa opinião é única e verdadeira são cada vez mais apreciadas. Tem sido cada vez mais difícil ouvir pedidos de desculpas, admitir que talvez tenhamos nos equivocado em algo e que as coisas, provavelmente, poderiam ter sido melhores. Os egos intelectuais inundam as redes sociais e, às vezes, até as mesas nas quais confraternizamos.

Um exemplo disso é o seguinte: há pouco mais de um ano, psicólogos do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano propuseram algo decisivo. A sugestão foi dirigida a toda a comunicação científica: devido ao grande número de pesquisas errôneas ou pouco válidas, era necessário publicar um pedido público de desculpas para avisar que esse olhar estava equivocado.

De acordo com a promotora dessa ideia, a doutora Julia M. Rohrer, a falta de humildade intelectual é um fator cultural. Está tão enraizado em nossos pensamentos e comportamentos que é necessário que alguém se coloque como exemplo a ser seguido.

Se o mundo da ciência ceder e admitir que muitas de suas conclusões não são válidas, corretas ou replicáveis, talvez aí seja dado um primeiro passo. Mas será que isso é possível? A oportunidade está em nossas mãos.

Mulher focada trabalhando

A simplicidade também é uma virtude intelectual

Alguma vez você já se sentiu frustrado porque alguém se negava a mudar de opinião sobre um aspecto cujo olhar era completamente errôneo? Certamente muita vezes, não é mesmo? Bom, vamos pensar então na última vez em que nós mesmos percebemos nosso erro e fomos capazes de admiti-lo. Isso faz muito tempo? Ou é algo comum para você?

É preciso admitir que as pessoas têm muita dificuldade de tomar consciência de que, às vezes, elas erram. Em alguns momentos, a nossa ignorância sobre algum aspecto é mais do que evidente. Entretanto, como dissemos anteriormente, é a própria cultura que nos leva a fingir essa força… essa falta de vulnerabilidade; um tipo de certeza intelectual que não dá abertura para erros e nem para admiti-los.

E mais, muitas vezes as pessoas veem com maus olhos aquelas que mudam de opinião. É como se os valores, os olhares e as crenças que mantemos hoje precisassem se manter obrigatoriamente para demonstrar coerência com nós mesmos. Mas, na verdade, somos mais do que obrigados a variar alguns conceitos como resultado da nossa experiência e maturidade. Do contrário, não estaríamos evoluindo.

As mudanças nos mantêm atualizados e não tem nada de errado deixar de defender o que ontem defendíamos com unhas e dentes.

Assumir nossa ignorância: um grande valor

“A sabedoria está em reconhecer a própria ignorância”, dizia Sócrates. “A ostentação do próprio conhecimento é a pior praga do ser humano”, afirmou Michel de Montaigne no século XVI. Poucos filósofos foram alheios à falta dessa dimensão que, na psicologia, chamamos de humildade intelectual.

A simplicidade também é uma virtude intelectual porque, com ela, sempre temos em mente que somos suscetíveis ao erro, que é aconselhável levar outras opiniões em consideração e que é preciso ter consciência dos nossos pontos cegos. Entretanto, o que na verdade são esses pontos cegos?

Estes pontos cegos são ângulos mortos que o nosso cérebro não percebe. Em outras palavras, são aqueles vieses dos quais não temos consciência, é a nossa rigidez mental e o fechamento cognitivo com o qual criamos barreiras contra as contradições, incertezas e opiniões contrárias.

Mark Leary, psicólogo social e da personalidade na Universidade de Duke, aponta algo importante: a própria ignorância é invisível para nós mesmos. Nós não a vemos e, se conseguirmos ver, será muito difícil admitir, porque aceitar que estamos equivocados gera sofrimento. Por outro lado, a pessoa simples, a mente que aplica a humildade intelectual, não terá problemas em assumir o erro. Fazer isso facilita o avanço, o aprendizado, e inclusive o enriquecimento cognitivo.

Casal fazendo planos

A importância da virtude intelectual

Há virtudes que passam despercebidas, mas que, no entanto, possuem a notável capacidade de transformar o mundo num lugar melhor. De alguma forma, aqueles que ostentam um excesso de autoconfiança e de arrogância, que demonstram ser infalíveis e inflexíveis, sempre chamam mais a atenção que os demais. São eles que levantam bandeiras como “Eu sei tudo e nunca estou errado!”.

E, no entanto, erram. Equivocam-se uma, duas, dez vezes. Porque quem não assume seus erros os repete. Por outro lado, a pessoa com humildade cognitiva e emocional monitora a si mesma e se atreve a fazer o correto, não o mais fácil, mesmo que isso implique assumir erros e aceitar outras perspectivas.

Porque, no final das contas, a simplicidade também é uma virtude intelectual. Ela se destaca como um exercício de indiscutível saúde social e emocional com o qual destronamos o ego para elevar a humildade, fazendo com que os preconceitos caiam por terra para abrir as portas para a flexibilidade e a compreensão. Poucos ofícios psicológicos são tão necessários hoje em dia. Que tal tentar exercitar essa capacidade? Vamos nos esforçar para torná-la real!