A teoria de Carol Gilligan e o desenvolvimento moral da mulher

Segundo Kohlberg, o desenvolvimento moral das mulheres era inferior ao dos homens. No entanto, Carol Gilligan afirma que, na realidade, o senso de justiça e a moral feminina são diferentes e seguem outra escala de prioridades.
A teoria de Carol Gilligan e o desenvolvimento moral da mulher
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater em 15 Novembro, 2021.

Última atualização: 15 Novembro, 2021

A teoria de Carol Gilligan propõe uma perspectiva diferente dos estudos realizados por Lawrence Kohlberg sobre o desenvolvimento moral do ser humano. Para essa psicóloga, filósofa e feminista da Universidade de Harvard, o problema de Kohlberg foi que ele identificou diferenças claras entre o desenvolvimento de meninos e meninas nesse âmbito.

As mulheres, segundo a abordagem de Kohlberg, apresentariam uma certa “fraqueza moral”. Não só eram mais lentas na consolidação dos diferentes níveis de competência moral, mas também não alcançavam o estágio mais elevado, o da ética da justiça.

Deve-se notar que Carol Gilligan estava muito familiarizada com o trabalho de Kohlberg porque ela foi sua assistente de pesquisa entre 1964 e 1967. Assim, algo que ela afirmava com frequência em seus trabalhos e publicações é que seu mentor usava dilemas morais hipotéticos que costumavam ser claramente enviesados para o sexo masculino.

Além disso, grande parte da amostra nas suas pesquisas eram crianças. Isso fez com que, anos depois, Gilligan publicasse seu conhecido trabalho In a Different Voice.

As mulheres, ao contrário dos homens, não se concentram apenas no respeito pelos direitos morais ou na ética da justiça. Segundo Gilligan, eles se moveriam no contexto, nas relações e em uma concepção global que transcende o normativo.

Mulher chateada ao pôr do sol

A teoria de Carol Gilligan, uma perspectiva feminista

Para entender o significado da teoria de Carol Gilligan, devemos entender o contexto. Era a década de 70-80. Os movimentos feministas buscavam se firmar na sociedade e, principalmente, reformular teorias que evidenciassem preconceitos de gênero.

Da mesma forma, devemos também considerar que Lawrence Kohlberg apresentou sua tese de doutorado sobre desenvolvimento moral em 1958, em um contexto sexista do qual ele não poderia se isolar completamente. Sua teoria consistia em três níveis, o pré-convencional, o convencional e o pós-convencional. Em cada um deles havia, por sua vez, duas etapas.

Algo que Kohlberg mostrou é que nem todas as pessoas alcançam os níveis mais elevados de desenvolvimento moral. Além disso, ele apontou que as meninas pontuaram mais alto ao buscar a aprovação de outras pessoas. Enquanto isso, os meninos alcançaram níveis mais elevados de consciência moral e estavam mais preocupados com as leis da sociedade.

A teoria de Carol Gilligan viria à luz anos depois, logo se tornando um clássico da literatura feminista. A revista Time chegou a reconhecê-la como uma das 25 pessoas mais influentes, embora sua abordagem não seja isenta de críticas.

Em 1977, Carol Gilligan publicou um artigo no qual reformulou a teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg para adicionar uma perspectiva de gênero centrada na figura da mulher.

Os estágios de desenvolvimento moral, de acordo com Gilligan

A teoria de Carol Gilligan adquiriu importância após a publicação de seu famoso artigo In a different voice em 1977. Em seu trabalho, Kohlberg deixou de lado as preocupações e experiências das mulheres.

Além disso, a amostra com a qual ele fez sua pesquisa era claramente tendenciosa: a maioria eram crianças ou jovens brancos de classe média ou alta. Gillian propôs um modelo alternativo para revelar o self da mulher nesse processo de desenvolvimento moral.

Moralidade pré-convencional

Nesse primeiro nível, não há muitas diferenças em relação às definições de Kohlberg: o julgamento moral da menina se concentraria inteiramente em si mesma e na necessidade de sobreviver. Você sempre priorizará as suas próprias necessidades.

Porém, mais tarde chega uma outra etapa desse período, quando a jovem passa a valorizar seus laços com os outros. Ela entende que focar em si mesma é um ato egoísta.

Moralidade convencional

Na teoria de Carol Gilligan, esse estágio é o mais ilustrativo. Um dos conceitos que melhor definem essa psicóloga é sua perspectiva sobre o aspecto do cuidado e a dimensão tradicionalmente associada à mulher.

Algo que define as mulheres em uma parte de suas vidas é a preocupação com os outros, e essa prioridade às vezes as leva ao autossacrifício e ao cancelamento da sua atenção para si mesmas. É uma moralidade centrada no autossacrifício. Lembre-se de que essa teoria foi enunciada na década de 70-80. A educação recebida e os modelos de gênero influenciam essa percepção, e isso foi algo que Kohlberg não levou em consideração.

Agora, dentro do estágio convencional, existe um segundo nível. É onde as mulheres começam a se conscientizar de que devem alcançar um equilíbrio melhor entre as suas necessidades e as dos outros.

Moralidade pós-convencional na teoria de Carol Gilligan

Nessa etapa, Gilligan estabelece que a mulher chega a um julgamento moral ditado pelo princípio da não violência (nem sobre si mesma nem sobre os outros). As necessidades de si são tão importantes quanto as necessidades dos outros. A igualdade é a chave.

Nesta fase, o senso de identidade da mulher atinge seu nível mais alto quando ela entende que não deve ser explorada.

Isso implica ter que encontrar seu espaço na sociedade e nas suas relações. Só assim é possível alcançar um equilíbrio adequado, aquele no qual elas possam se desenvolver e atingir todo o seu potencial, sem estar exclusivamente subordinadas à promoção do bem-estar alheio.

De acordo com Gilligan, o senso de identidade de uma mulher sempre luta com duas tendências: a necessidade de conexão e atenção aos outros e a sua própria independência.

Garota solitária observando a vista

Críticas à teoria de Carol Gilligan

Uma das críticas mais comuns à teoria de Carol Gilligan tem muito a ver com seu foco na ideia de que as mulheres precisam de atenção e cuidados. De certa forma, essa visão mais uma vez perpetua o papel de cuidador associado ao gênero feminino. A ideia de que os homens não se importam tanto quanto as mulheres com conexões e relacionamentos também é criticada.

Por outro lado, há um outro aspecto que permanece em evidência e que talvez a faça cair no mesmo erro de Kohlberg. Carol Gilligan, assim como seu mentor, presume que meninos e meninas exibem diferentes desenvolvimentos morais e éticos. Mais uma vez, as diferenças associadas ao sexo são perpetuadas.

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  • Gilligan C. In A Different Voice: Psychological Theory And Women’s Development. Cambridge, MA.: Harvard University Press; 1982.
  • Gilligan C. In a Different Voice: Women’s Conceptions of Self and of Morality. Harv Educ Rev. 1977;47(4):481-517. doi:10.17763/haer.47.4.g6167429416hg5l0
  • Wilkinson S. Feminist Psychology. In: Fox D, Prilleltensky I, ed. Critical Psychology: An Introduction. 1st ed. London: Sage Publications; 1997:247-264.