Qual é a diferença entre uma consciência e outra?

· abril 14, 2019
As pessoas são mais do que células, músculos, ossos e uma pele que as envolve. Nós temos dois tipos de consciência, duas dimensões que nos dão humanidade. Saber diferenciá-las pode nos ajudar a compreender melhor a nós mesmos.

Há dois tipos de consciência. Não é a mesma coisa dizer “tenho a consciência tranquila” e “estar consciente depois de receber um baque” ou “ser consciente de cada um dos estímulos que nos rodeiam”. O primeiro termo tem um grande interesse para o campo da filosofia. O segundo, no entanto, ainda é um desafio para a neurociência.

O biólogo e ganhador do prêmio Nobel Francis Crick costumava dizer que, embora seja necessário saber diferenciar uma dimensão da outra, na verdade sempre faltarão palavras na hora de tentar definir cada uma delas. Isso porque são entidades tremendamente complexas, principalmente o segundo tipo de consciência.

Às vezes nós podemos nos encontrar em situações ambíguas que podem nos levar a cometer equívocos. De fato, e mesmo que pareça surpreendente, é muito comum cair em erros e inclusive ver tais erros em muitas publicações de alguns autores confundindo os termos.

Portanto, vejamos que nuances e particularidades definem cada uma destas dimensões.

“A consciência só pode existir de uma forma, tendo consciência de que ela existe”.
– Jean Paul Sartre –

Mulher observando as luzes

Os dois tipos de consciência: características e singularidades

Se nós tivéssemos que usar uma definição básica e geral para diferenciar os dois tipos de consciência, seria a seguinte: uma delas te permite fazer parte da sua realidade, perceber cada nuance, estímulo e processo interno. A outra, por sua vez, permite que você se comporte de forma moral e socialmente aceitável.

No geral, sem dúvida, parece ser compreensível e até mesmo simples diferenciar uma da outra. No entanto, se alguém nos dissesse que “É consciente de seus atos”, essa pessoa estaria se referindo ao aspecto moral, ao perceptivo ou talvez a ambos? Nesses casos, entramos em um plano subjetivo no qual tudo depende do que o emissor quer expressar.

Os mistérios da consciência

O que é a consciência?

O matemático e filósofo Blaise Pascal dizia que a consciência é o melhor livro de moral que temos. E ele não estava errado. Esta realidade se refere, basicamente, à capacidade que as pessoas têm para saber quais atos, pensamentos, palavras e situações são corretas e quais não.

É um conceito moral e ético: entretanto, cabe sinalizar que apresenta, além disso, algumas pequenas considerações:

  • Consciência não tem nada a ver com processos como a atenção ou a percepção;
  • Filósofos como Descartes e Locke tentaram, na sua época, se aprofundar neste conceito para entender, por exemplo, como a consciência se relaciona com a linguagem, com o pensamento e a inteligência. Além disso, devemos ter em conta que uma das diferenças mais notáveis entre uma consciência e a outra é que, para os filósofos, uma delas é uma “virtude”.   
  • Desse modo, quando dizemos que alguém “tem consciência”, estamos dizendo que essa pessoa tem valores morais. Nesse caso, estamos nos referindo à consciência como alguém que tenta viver de acordo com as normas básicas de respeito e equilíbrio. E mais, às vezes também dizemos que os animais demonstram “consciência”, pois realizam certos comportamentos morais ou “sociais” que remetem às virtudes mais humanas.

O que é a outra consciência?

Esta consciência é mais do que estar acordado, que ter os olhos abertos e se sentir parte da realidade sensível que nos cerca. William James, pai da psicologia norte-americana, foi um dos primeiros autores a abordar essa diferença entre as consciências. Como filósofo, psicólogo e cientista, definiu a consciência através de uma série de características que nos permitirão compreendê-la muito melhor:

  • Esta consciência é subjetiva. Não tem nada a ver com a ética ou a moral. É um processo pessoal no qual uma pessoa é consciente de seus próprios pensamentos, de sua realidade interna.
  • Se relaciona com o pensamento, portanto, sempre está em constante mudança, é algo contínuo que nunca para, que sempre está processando informação, atendendo a estímulos.
  • Da mesma forma, esta consciência também pode ser seletiva. Em um determinado momento, as pessoas podem dar atenção a ela em um aspecto (interno ou externo) para separá-la do resto dos estímulos e ter contato com o que as interessa.

A consciência é o maior enigma do ser humano

Christof Koch é um neurocientista norte-americano e um dos maiores especialistas no estudo da consciência e de suas bases neuronais. Livros como Em busca pela consciência: uma abordagem neurobiológica apresentam a principal diferença entre as consciências, apesar de ainda ser um enigma.

Uma delas tem a ver com o senso de responsabilidade, com os valores e conhecimento de cada um por si próprio e por seus atos.

A consciência é tudo o que você experimenta. É a canção que fica na sua cabeça. É o doce do mousse de chocolate, a dor palpitante da dor de dente, o amor pelos filhos, e a segurança de que, um dia, deixaremos este mundo.

Este cientista, por sua vez, diz que há dois tipos de consciência:

  • A consciência primária. Tem a ver com as nossas percepções, sensações, memória, pensamentos, com aquilo que sonhamos, com o que desejamos, etc. Tudo aquilo que nos possibilita nos separarmos do que nos cerca para definir a nossa individualidade.
  • A consciência reflexiva. Esta dimensão é, talvez, um âmbito ao mesmo tempo muito interessante e desafiador. Tem a ver com “observar a própria mente”, com saber o que somos, o que sabemos, o que acontece em nosso “ser interno”.

Para concluir, como vimos, os dois tipos de consciência são termos muito complexos e, ao mesmo tempo, interessantes. São também mais do que meros produtos da nossa mente. É o que nos torna humanos. Como disse Thomas Huxley no seu tempo, são entidades que nos fazem ser “conscientes” de que nós somos mais do que ossos, músculos, células e uma pele que nos envolve.