O protocolo unificado para o transdiagnóstico de transtornos emocionais

Apresentamos um dos mais novos tratamentos transdiagnósticos disponíveis para tratar uma ampla gama de distúrbios emocionais. O objetivo final é conseguir a regulação das próprias emoções.
O protocolo unificado para o transdiagnóstico de transtornos emocionais

Última atualização: 16 Julho, 2021

O protocolo transdiagnóstico vem ganhando importância no tratamento de diversos transtornos emocionais. Ele é baseado no reconhecimento de que diferentes categorias de diagnóstico costumam compartilhar determinados fatores comuns.

Psicólogo americano e professor emérito de psicologia, David Barlow elaborou um protocolo unificado de tratamento transdiagnóstico de transtornos emocionais (PUT), com o qual pretendia tratar um amplo espectro de transtornos emocionais que compartilham certas características e que, por isso, poderiam se beneficiar das mesmas técnicas e estratégias.

É um tratamento cognitivo-comportamental que incorpora princípios de outros tratamentos comprovados ​​para os diagnósticos com os quais trabalha.

O fato de realizar tratamentos usando a abordagem transdiagnóstica para distúrbios emocionais pode ser muito eficiente, além de eficaz. O PUT nos permite realizar um tratamento integrado, não só para o problema principal que o paciente sofre, mas também para as comorbidades que ele apresenta. Por exemplo, descobriu-se que ansiedade e depressão coexistem em uma grande porcentagem de pacientes.

Atualmente, existem vários protocolos unificados, como o transdiagnóstico de Fairbum para transtornos alimentares ou o de Norton para transtornos de ansiedade. O PUT se concentra nos transtornos de ansiedade, transtornos afetivos e aqueles com um grande componente emocional, como transtornos somatoformes e dissociativos.

Tem sido usado com sucesso em ensaios com agorafóbicos, pacientes com hipocondria, fobia específica, TEPT e depressão maior. A partir dessa abordagem, o principal fator comum considerado é um déficit nas habilidades de regulação emocional.

Transtorno de personalidade

O que é a regulação emocional?

A regulação emocional é uma capacidade da inteligência emocional que se baseia no bom gerenciamento das emoções. Saber como funciona o círculo pensamento-emoção-comportamento é essencial, porque assim seremos mais capazes de exercer um maior controle emocional. A regulação emocional, por sua vez, abriga várias subcompetências:

  • Expressão emocional apropriada.
  • Regulação de emoções e sentimentos.
  • Habilidades de enfrentamento.
  • Competência para autogerar emoções positivas.

As pessoas com distúrbios emocionais costumam usar estratégias de regulação emocional inadequadas que contribuem para a manutenção dos sintomas. Essas estratégias desadaptativas estão presentes em quase todos os transtornos nos quais o afeto negativo é intenso.

Para substituir essas estratégias, o paciente passa por uma série de módulos, cada um dedicado a trabalhar em um tipo de estratégia. No total, são 8 módulos que explicaremos a seguir.

Módulos do protocolo unificado para tratamento transdiagnóstico

O protocolo transdiagnóstico para transtornos emocionais é composto por 8 módulos nos quais diferentes estratégias são aplicadas com o objetivo final de aprender a regular as próprias emoções e realizar um enfrentamento mais adaptativo.

Módulo 1. Aumento da motivação para o compromisso com a terapia

Inicialmente, é importante que o paciente desenvolva a motivação adequada para iniciar a terapia. As técnicas utilizadas incluem o equilíbrio decisório, com o qual o paciente analisa os seus motivos para mudar e iniciar a terapia. Além disso, é feita a definição de metas pessoais e as preocupações do paciente são validadas, incentivando a análise de novas perspectivas para resolver problemas.

Ou seja, entende-se que o paciente pode ter preocupações, mas ele é incentivado a não se fixar nelas, e sim a sair e explorar alternativas mais funcionais.

Módulo 2. Compreender as emoções

Uma psicoeducação é realizada com o paciente para explicar que as emoções não são boas nem más, mas adaptativas ou disfuncionais. Essa psicoeducação é necessária devido à forte tendência da nossa sociedade de evitar e fugir das emoções mais negativas como se fossem algo atroz.

Além de falar sobre as emoções, é importante explicar o modelo dos três componentes da experiência emocional. O paciente aprende como os pensamentos influenciam as nossas emoções e, por sua vez, a maneira como nos comportamos.

É importante também que o paciente aprenda a fazer uma análise funcional do próprio comportamento, identificando antecedentes e consequências. Dessa forma, é mais fácil ver o que está causando o problema e o que o mantém.

Módulo 3. Treinamento em consciência emocional

Neste módulo, o paciente é treinado para lidar com a tentação de julgar as suas emoções. A pessoa é encorajada a entrar em contato com elas sem rotulá-las e focar no presente. Outra técnica também realizada neste módulo é a indução do estado de humor com música.

Módulo 4. Avaliação e reavaliação cognitiva

Neste módulo, é realizado um treinamento de detecção de pensamentos automáticos negativos. Uma vez que o paciente é capaz de capturá-los, ele é ensinado a analisar as distorções que normalmente comete (catastrofização, ampliação, inferência arbitrária…), e é ajudado a realizar uma reinterpretação cognitiva para aumentar a flexibilidade do pensamento e gerar pensamentos alternativos.

Módulo 5. Evitação emocional

Aqui, apresentamos o conceito de comportamento seguro para aquelas ações que buscam a evitação emocional. Existem três estratégias de evitação emocional que o paciente deve compreender corretamente para modificá-las:

  • Evitação por meio de comportamentos sutis: são comportamentos dos quais temos consciência, como não beber refrigerante com cafeína por medo de ter um ataque de pânico.
  • Evitação cognitiva: são aquelas fugas realizadas através do pensamento. Exemplos disso são a distração, dissociação ou racionalização.
  • Comportamentos de segurança: o objetivo é evitar que ocorram emoções negativas. Um exemplo disso poderia ser carregar um ansiolítico na bolsa para o caso de precisar usá-lo.
Sessão de terapia

Módulo 6. Comportamentos impulsionados pela emoção (CIE)

Visam reduzir a intensidade das sensações e emoções: tanto as associadas a um estímulo externo quanto as associadas a um interno que o paciente considera aversivo. Por exemplo, a ansiedade vivida na véspera de uma entrevista de emprego nos leva a nos prepararmos muito bem para a entrevista, às vezes excessivamente.

Neste módulo, o paciente deve identificar CIEs desadaptativos e desenvolver diferentes tendências de ação. Como pode ser visto no exemplo, nos CIEs a emoção negativa já está ocorrendo.

Ao contrário, nos comportamentos de evitação explicados no ponto anterior, a emoção ainda não ocorreu e o paciente tenta evitá-la.

Módulo 7. Consciência e tolerância de sensações físicas

A exposição interoceptiva geralmente é realizada para provocar voluntariamente as sensações físicas que podem ser temidas em um ataque de pânico.

Módulo 8. Psicoeducação sobre medicamentos, comorbidades, conquistas e prevenção de recaídas

O último módulo, como o próprio nome sugere, tem como objetivo que o paciente compreenda os efeitos de um tratamento medicamentoso, avalie a possibilidade de implementá-lo, tome consciência das suas conquistas e continue praticando todas as estratégias aprendidas para evitar recaídas. O protocolo transdiagnóstico de transtornos emocionais está se mostrando cada vez mais eficaz e, acima de tudo, eficiente, pois pode aplicar o mesmo tratamento em um grande número de pessoas.

As técnicas são selecionadas de acordo com o seu nível de eficácia e, até o momento, apresentam bons resultados terapêuticos. Porém, lembremos a importância de adaptar o tratamento psicológico a cada paciente. Embora existam tratamentos protocolizados como este que apresentamos, é essencial que o clínico distinga em qual paciente ele pode aplicá-lo e em quais casos deve investigar outras alternativas de intervenção que tenham se mostrado eficazes.

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  • Barlow, H. D. Protocolo unificado para el tratamiento transdiagnóstico de los trastornos emocionales. Manual del paciente: 2.ª edición. Alianza editorial