Você repassa as suas preocupações antes de dormir? Esta é a causa!

Ao se deitar à noite, tudo o que você deseja é descansar por oito horas seguidas. No entanto, seu cérebro nem sempre colabora, te obrigando a repassar todas as suas preocupações uma a uma (sem se esquecer nenhuma).
Você repassa as suas preocupações antes de dormir? Esta é a causa!
Valeria Sabater

Escrito e verificado por o psicólogo Valeria Sabater.

Última atualização: 10 dezembro, 2021

Se você é daqueles que repassa as preocupações antes de dormir, sabe o cansaço que esse hábito pode provocar. Você salta de uma especulação para outra, como um esquilo curioso que leva pouco tempo para pular de galho. Examina cada acontecimento ou circunstância em detalhes e, mesmo sabendo que seria melhor desligar a mente e deixá-la descansar, você continua por horas…

Seria ótimo se isso fosse fácil. Adoraríamos ir para a cama, e ao simplesmente colocar a cabeça no travesseiro a nossa agitação mental desaparecesse. No entanto, não importa se o quarto ou a casa estão no mais profundo silêncio. A nossa mente não se cala, além de ser uma fábrica de preocupações um tanto desobediente, e que não sabe a hora de parar.

Às vezes não basta fazer um inventário sucinto de todos os problemas existenciais. Em alguns dias até fazemos uma compilação de todos os nossos momentos mais tristes, angustiantes ou constrangedores. Quase sem perceber, o clima emocional em nosso travesseiro se torna menos agradável, o que dificulta a chegada do sono e o descanso tão esperado…

Se você se identifica com esta situação, ficará feliz em saber que se trata de um fenômeno psicológico muito comum, e que existem estratégias para administrá-lo.

“Quando penso nos meus defeitos à noite, adormeço imediatamente.”

-Oscar Wilde-

Homem cheio de preocupações antes de dormir.

Por que você repassa as suas preocupações antes de dormir?

Quando você repassa as suas preocupações antes de dormir como um gerente fazendo um inventário do depósito, algo interessante acontece. Você pode escolher pensamentos mais gentis, confortáveis e felizes. No entanto, a mente é muito seletiva nesses momentos com o material mental com que trabalha.

A origem desse estado não é outra senão a ansiedade. Geralmente pessoas com transtorno de ansiedade latente são as que mais apresentam esses estados de preocupação intensa que dificultam uma boa noite de sono. Além disso, o fato de o cérebro sofrer um pico de ansiedade exatamente quando vamos para a cama responde a um mecanismo evolucionário impressionante, que analisaremos a seguir.

Avaliar situações e atitudes para sobreviver melhor

O cérebro humano do século 21 é resultado de milhares de anos de evolução. Esse fato, que sem dúvida pode ser uma vantagem, apresenta alguns problemas de “fábrica” que ainda não foram resolvidos. Esses pequenos erros estão relacionados à maneira como processamos os desafios diários, sejam eles grandes ou insignificantes.

Já não somos caçadores-coletores, e não vivemos em ambientes selvagens e cheios de riscos, mas a nossa mente reage da mesma maneira: processando ameaças constantemente. A noite e o silêncio criam o momento ideal para avaliar situações e atitudes, e detectar qualquer alerta ou risco. Tudo é objeto de análise.

Quando você repassa as suas preocupações antes de dormir, não demora muito para que o seu cérebro interprete sinais de alerta nas questões mais simples. Se você acha que agiu de maneira pouco assertiva no trabalho, seu cérebro já especula que você pode ser demitido. Se você pensa na mensagem que o seu amigo não respondeu, logo conclui que se trata de ghosting.

O cérebro possui uma tendência quase instintiva de se concentrar nos problemas em vez das experiências positivas. Ele faz isso devido à uma tendência inata de avaliar os riscos para que possamos desenvolver estratégias de ação e sejamos capazes de nos adaptar e sobreviver a um ambiente sempre complexo.

A ansiedade latente

Trabalhos de pesquisa, como os realizados pelo Dr. Luc Staner, do laboratório do sono da empresa farmacêutica FORENAP em Rouffach (França), destacam a relação entre os transtornos de ansiedade e os distúrbios do sono. Condições como transtorno de ansiedade generalizada e transtorno de estresse pós-traumático estão por trás dessa realidade.

Ao repassar as suas preocupações antes de dormir, você entra em ciclos de pensamento ruminante. No entanto, essa experiência não acontece apenas no final do dia. Ideias obsessivas e autocríticas permanecem latentes o tempo todo; no entanto, na calmaria da noite, esse diálogo interno aumenta de volume e tem uma presença maior.

Por outro lado, cabe notar que personalidades altamente perfeccionistas também costumam levar a esses labirintos noturnos de sofrimento.

Mais do que os problemas em si, o nosso maior desafio está em enfrentar o que nos tira o sono. Analisar essas realidades de forma obsessiva e reforçar um olhar negativo e passivo intensifica o desconforto.

Mulher com os olhos fechados, acalmando as preocupações antes de dormir.

Como parar de pensar demais antes de dormir

Quando a preocupação recai sobre você no momento em que deita a cabeça no travesseiro noite após noite, a sua saúde física e mental são afetadas. A falta de sono intensifica a própria ansiedade já existente, por isso você precisa fazer mudanças. Isso envolve focar em duas áreas: cuidar da higiene do sono e controlar o próprio estado de ânimo.

Em resumo, seria aconselhável começar uma série de objetivos:

  • Aprenda técnicas de resolução de problemas.
  • Dedique uma hora específica do dia para resolver o que te causa ansiedade (programação da preocupação).
  • Introduza técnicas de respiração profunda e relaxamento no dia a dia.
  • Siga a mesma rotina antes de dormir e ao se levantar.
  • Evite refeições muito pesadas ou praticar exercício físico ante de dormir.
  • Desconecte os aparelhos eletrônicos duas horas antes de ir para a cama. Lembre-se de que as telas são estimulantes e dificultam o descanso noturno.
  • Certifique-se de que o sono te encontre com a mente relaxada (talvez lendo um livro), e não num abismo de preocupações.

Para concluir, cabe ressaltar que não é fácil educar a nossa mente para para que ela diminua o volume de preocupação. No entanto, nunca é tarde para estabelecer uma nova rotina e um novo foco em direção à tranquilidade psicológica, e não à preocupação constante.

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