A pegada molecular do estresse

05 Setembro, 2020
Você sabia que o estresse pode modificar o seu DNA a ponto dos seus netos ficarem mais suscetíveis a certas doenças? Isso é conhecido como pegada molecular do estresse.

A epigenética é a disciplina que estuda as mudanças no genoma produzidas por fatores ambientais e hereditários. Graças a ela, sabemos que certas experiências de vida alteram o nosso código genético. A pegada molecular do estresse é um dos fatores em estudo atualmente. Isso porque ela altera as informações que predispõem as pessoas a certas doenças.

O estresse é uma sensação de tensão física e mental que pode ser muito prejudicial à saúde, embora tenha um papel adaptativo fundamental, pois coloca o corpo em estado de alerta. Quando estamos estressados, os níveis de adrenalina e cortisol aumentam, resultando em um estado de superexposição que altera a resposta do sistema imunológico, do sistema digestivo e de outros processos de crescimento.

Assim, pesquisadores de todo o mundo estão estudando se essas alterações constituem parte da informação genética de alguma forma e se podem ser transmitidas hereditariamente.

O estresse é uma sensação de tensão física e mental

A pegada molecular do estresse

Para investigar a pegada molecular do estresse, uma equipe da Escola de Medicina da Universidade Tufts (EMUT) estudou o que aconteceu em uma linha sucessória de uma geração. O que os pesquisadores constataram foi que tanto os filhos quanto os netos apresentavam sintomas relacionados ao estresse sofrido por seus antecessores.

Da mesma forma, pesquisadores também estudaram o efeito do estresse pós-traumático, principalmente em gestantes e seus filhos. Nesse sentido, eles constataram que qualquer violência experimentada durante a gravidez faz com que o DNA dos bebês tenha uma atividade genômica diferente. Isso é conhecido como metilação e consiste na reação do genoma ao ambiente ao ativar ou desativar alguns genes.

Esse processo é um mecanismo evolutivo que facilita a adaptação ao ambiente. Portanto, pode-se interpretar que a informação genética do sucessor muda como uma resposta adaptativa, o que pode levar a crianças mais temerosas ou agressivas.

Herança genética

É fato que os genes e o ambiente interagem de forma bidirecional. Assim, um fator genético pode proteger contra adversidades ambientais, enquanto um fator ambiental pode afetar uma característica genética, predispondo a uma doença.

Conforme mencionado acima, pesquisas verificaram que o estresse pode alterar o funcionamento do genoma e até mesmo ser transmitido de geração em geração. Entre os aspectos que o estresse pode afetar ao longo do genoma estão a longevidade e o risco de doenças cardiovasculares.

Idosos caminhando

Longevidade

Um estudo conduzido pela Escola de Medicina da Universidade de Indiana e pelo Instituto de Pesquisa Scripps identificou vários genes que podem alterar a resposta ao estresse e os efeitos no humor.

Em outras palavras, esse estudo descobriu que pessoas que sofriam de estresse significativo ou de transtornos do humor apresentavam uma alteração nos níveis de expressão do gene ANK3. Isso está relacionado ao envelhecimento precoce e à redução da longevidade.

A pegada molecular do estresse e as doenças cardiovasculares

Outro estudo, liderado pela Universidade Duke, analisou a interação dos genes com o ambiente em relação às doenças cardiovasculares. Nele, os pesquisadores identificaram uma variante genética que aumenta a suscetibilidade de portadores a sofrerem de doenças cardiovasculares, além de diabetes e obesidade.

Curiosamente, o estresse está relacionado a essas condições médicas, mas, além disso, de acordo com esse estudo, essa predisposição pode ser genética. Especificamente, quem tem polimorfismos específicos no gene EBF1 está em maior risco. Isso porque esse gene desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do sistema imunológico.

Em suma, a pegada molecular do estresse não apenas pode determinar o risco de sofrer uma doença no futuro, mas também é transmissível e pode influenciar a suscetibilidade dos nossos descendentes. Por isso, e para amenizar seus efeitos de curto prazo, é importante conhecer e internalizar ferramentas que auxiliem no controle do estresse.