Como amar a dois, segundo o psicoterapeuta Russ Harris

20 Novembro, 2020
Quais são as chaves para fortalecer o relacionamento de acordo com a terapia de aceitação e compromisso? Neste artigo, nós as revisaremos seguindo as propostas de Russ Harris.

Russ Harris está na lista de profissionais da área de psicoterapia que seguem uma abordagem focada na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT). De origem britânica, é atualmente um dos mais famosos especialistas em ACT. Russ Harris aplica essa terapia individualmente e em casal, quando amar a dois se torna especialmente difícil e as emoções estão à flor da pele.

Russ Harris é o autor de um dos livros mais vendidos de autoajuda, que é chamado de The Happiness Trap: Stop Struggling, Start LivingHá um outro livro que também carece de tradução para o português, cujo título equivalente seria ACT com amor. Este artigo se concentrará nas ideias-chave expressas sobre o amor como casal e a gestão de conflitos de acordo com a ACT, seguindo as ideias principais defendidas por Russ Harris.

As dificuldades de amar a dois

Os relacionamentos têm suas idas e vindas. Eles podem ser maravilhosos em alguns dias e absolutamente terríveis em outros. A dificuldade do amor a dois está intimamente associada aos desafios colocados pelo fluxo das emoções, tanto no vínculo quanto individualmente.

Emoções que, pela sua natureza dinâmica, variamNo começo do relacionamento, as emoções principais costumam ser aquelas voltadas ao cuidado e dedicação ao parceiro(a). No entanto, uma vez que o relacionamento se estabiliza, o mesmo acontece com a intensidade com que essas emoções agradáveis ​​são sentidas.

Problemas no relacionamento

Em suma, o fato de amar a dois pode produzir certas emoções desagradáveis. Algumas podem nascer da expectativa de que o parceiro(a) suprirá todas as nossas necessidades e demandas, dando lugar a um ciclo de desconfortos do qual não é fácil sair. Esse ciclo de desconforto faz com que cada membro do casal se concentre mais no que o outro faz por ele, em vez de olhar para como a relação como um todo soma.

Na questão atencional, as necessidades não atendidas ou as expectativas frustradas começam a se destacar em relação às necessidades cobertas ou às expectativas atendidas.

Os casais também podem ser prejudicados por uma série de mitos que a sociedade alimenta e transmite. São crenças errôneas que afetam as expectativas que um tem do outro, os papéis que cada um deve desempenhar para amar como casal ou as exigências que são feitas. Os mitos mais importantes nesta lista seriam os seguintes:

O companheiro perfeito

Ele é referido como a pessoa ideal e sem falhas. Aquele que atende a todas as necessidades da outra pessoa às custas das próprias. Esse tipo de fantasia imposta pela sociedade na forma de livros, filmes românticos ou até mesmo contos de fadas prejudica o relacionamento do casal.

As crenças a respeito de como o relacionamento deve ser e o comportamento do outro podem colidir com a realidade. O que se consegue com isso é o efeito oposto: trazer à luz ou evidenciar os pontos mais fracos da relação do casal.

A metade da laranja

O ideia de termos nascido como seres incompletos que precisam conhecer a sua outra metade da laranja é muito difundida. Quantas músicas falam coisas como “sem você eu não sou nada” ?

Como resultado disso, jogamos a responsabilidade para o outro no atendimento das nossas necessidades. Além do mais, há uma tendência a pensar que amar a dois significa preencher as carências da outra pessoa, ideia que é contraproducente para o relacionamento.

Essa crença tem consequências na relação, pois algumas pessoas podem seguir esse conceito ao pé da letra, tornando-se mais dependentes e temendo a possibilidade de ficarem sozinhas.

O amor é fácil e dura para sempre

Amar a dois pode ser fácil no começo do relacionamento. No entanto, com o tempo, as diferenças entre as duas pessoas vêm à tona. Isso é o que comumente chamamos de “incompatibilidades” no jargão atual.

Essas incompatibilidades nos levam de volta ao primeiro ponto sobre “o parceiro perfeito”. Amar a dois, portanto, não é fácil. Para que o vínculo sobreviva às dificuldades, é necessária a compreensão, a cumplicidade ou a intimidade, bem como a negociação dos pontos-chave e a aceitação das diferenças, sem transformá-las em instrumentos para usar contra o outro em momentos de crise.

Flexibilidade psicológica na relação do casal

Russ Harris faz alusão ao termo flexibilidade psicológica para amar a dois. Este termo se refere a assumir as situações da vida cotidiana em casal com uma certa abertura à experiência, estando em contato com o momento presente para realizar ações efetivas direcionadas aos valores do casal.

Ganhar uma maior flexibilidade psicológica leva a melhorias nas situações de desconforto que afetam o casal. Entre essas melhorias, estão as seguintes:

  • Reconheça e aceite as diferenças individuais entre os membros do casal.
  • Afaste-se das diferenças com maior possibilidade de causar conflito. Isso favorece os processos de tomada de decisão do casal em situações de incompatibilidade.
  • Reduzam as expectativas que ambos têm em relação aos membros da relação e que podem originar conflitos derivados das crenças do “parceiro ideal”.
  • Entre em contato com as experiências que surgem no presente, favorecendo as interações que acontecem com o casal e, por sua vez, diminuindo a importância de acontecimentos passados ​​e/ou futuros.
  • Reduza o impacto de pensamentos e emoções desagradáveis que constituem um obstáculo às ações que visam a promoção do vínculo.
Flexibilidade psicológica na relação do casal

Para quem este livro foi escrito?

Em primeiro lugar, é preciso comentar novamente que, atualmente, não existe uma tradução para o português deste livro, por isso ele teria que ser lido em inglês. Russ Harris faz alusão aos principais leitores que podem se beneficiar do seu conteúdo:

  • Casais que desejam enriquecer seu relacionamento.
  • Pessoas que têm dificuldade em amar a dois e desejam tirar proveito de alguns dos exercícios propostos no livro.
  • Aqueles que não estão em um relacionamento atualmente, mas querem aprender com o conteúdo para o futuro.
  • Psicólogos que desejam encontrar ideias para trabalhar na terapia de casais.

Em última análise, o livro resume os vários usos da terapia de aceitação e compromisso e como ela pode ser integrada ao relacionamento. Ao final de cada capítulo, uma série de atividades são fornecidas para casais ou terapeutas que desejam colocar a teoria em prática.

No entanto, não se trata de um passo a passo. Russ Harris escreve sobre conceitos teóricos, exemplos da vida cotidiana e técnicas de aprimoramento de relacionamento. Às vezes essas estratégias podem funcionar e às vezes não, dependendo do momento e da qualidade do relacionamento. Por este motivo, os processos de separação são normalizados como mais um processo na relação… e também por este motivo, é recomendável que qualquer intervenção seja orientada e supervisionada por um especialista experiente.