Autoexigência e redes sociais, uma armadilha perigosa

Quem usa as redes sociais como espelho está fadado a se sentir imperfeito. Porque nesse mundo digital, dominado por filtros e falsas felicidades, nos fazem acreditar que só quem se esforça arduamente alcança aqueles preciosos objetivos que são recompensados com milhares de likes.
Autoexigência e redes sociais, uma armadilha perigosa
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater.

Última atualização: 02 dezembro, 2022

Se há um cenário que nos leva quase todos os dias à comparação social, são as redes sociais. É verdade que é um campo muito estimulante, que as redes sociais convidam à aprendizagem e que são ferramentas fabulosas para conectar e nos mantermos informados. Porém, como a maioria das áreas ligadas às novas tecnologias, elas também têm seu lado obscuro.

Dessa forma, espaços como Instagram ou TikTok são esses buracos negros cotidianos nos quais muitas pessoas -especialmente os mais jovens- procuram se divertir e caem em mais de uma armadilha. Como por exemplo, acreditar que o mais importante acontece em uma tela. Isso faz com que muitos adolescentes usem esses aplicativos como espelhos para “desconstruir” a própria imagem.

O que eles apreciam todos os dias é uma versão romantizada de uma realidade construída por filtros. É também um universo em que todo influencer cuida muito bem do que mostra. Porque a perfeição atrai, desperta o fascínio e é preciso lhe dar a melhor forma possível visto que tudo isso se traduz em milhares de likes.

A tirania do perfeito, seja de um corpo ou de um estilo de vida, pede a autoexigência mais destrutiva. É um compromisso que, longe de nos permitir chegar à nossa melhor versão (saudável), nos leva ao esgotamento e ao fracasso em alcançar um objetivo pouco realista (patológico).

O perfeccionismo não traz felicidade, é antes um modo de existência em que, mais cedo ou mais tarde, se cai no abismo da ansiedade e da depressão.

menina que sofre com a relação entre autocobrança e redes sociais
Estudos nos dizem que as redes sociais reforçam cada vez mais nossa autoexigência e a necessidade de sermos perfeitos.

A cultura da infelicidade: autoexigência e redes sociais

Atualmente, a autoexigência é um traço socialmente desejável. Em relação a isso, embora seja positivo e aconselhável reforçar o nosso sentido de superação e de melhora, tudo tem um limite, um equilíbrio, uma bifurcação que não deve conduzir ao sofrimento e à auto-rejeição.

Em média, os perfeccionistas mais obsessivos e autoexigentes perseguem um padrão irreal e completamente impossível, que os leva repetidas vezes ao fracasso, com o que geralmente é derivado dele. Sentimentos de inadequação, falibilidade, autodepreciação e um lento aniquilamento da autoestima.

O triste é que vivemos em uma cultura que nos pressiona para sermos melhores. Marketing, publicidade, cinema, moda… Estamos falando de cenários em que tudo parece ter um padrão muito alto. Nesse sentido, a tarefa de nos aceitarmos e nos amarmos se complica quando vemos muito mais defeitos em nossa vida do que na vida dos outros.

A autoexigência e as redes sociais formam uma dupla muito problemática à qual devemos prestar mais atenção.

Os jovens estão cada vez mais perfeccionistas e autoexigentes

Uma Pesquisa da Universidade de Bath destacam que as novas gerações demonstram um maior perfeccionismo do que seus pais. Década após década, esse fator de personalidade aumenta e o vínculo que parece promovê-lo são as redes sociais. Para entender essa relação, devemos levar em conta uma série de fatores.

O primeiro deles tem a ver com o tempo que os adolescentes passam em frente a uma tela. Em média, eles podem passar cerca de cinco horas por dia, talvez mais. Poderíamos dizer que os jovens entre 13 e 29 anos construíram sua identidade através de cenários como Instagram, YouTube, TikTok, Twitch, etc.

Esses pequenos mundos virtuais são habitados por pessoas que vivem vidas perfeitas, que têm uma imagem atraente e que conseguiram coisas excepcionais (como ter milhões de seguidores). Os heróis do século 21 são, em sua maioria, influencers com os quais os jovens se comparam. É então que começa essa demanda cotidiana para ter o mesmo corpo ou atingir os mesmos objetivos daquelas referências que admiram.

As redes sociais não são as únicas que fazem com que muitas pessoas se rejeitem por não serem como aquelas celebridades que seguem em suas contas. A cultura e até nossa educação nos inoculam a ideia de sermos os melhores, os mais perfeitos e infalíveis.

O feitiço das redes sociais e o perfeccionismo autocrítico

A autocobrança e as redes sociais traçam essa linha em que a saúde mental se rompe e é colocada em xeque. Devemos entender que por trás de grande parte dos transtornos alimentares (TCA), por exemplo, se escondem desde a alta autoexigência, até o perfeccionismo mais obsessivo, passando pela rigidez cognitiva e pela necessidade de controle.

Cenários como o Instagram tendem a atrair muitos jovens que já têm uma autoestima baixa. Expor-se a um mundo carregado de filtros, de pessoas que fazem sucesso e que demonstram grande atratividade física, estimula esses meninos e meninas a comportamentos muitas vezes patológicos para alcançar esses corpos ou essas metas impossíveis.

Devemos ressaltar que é mais provável que resulte em ansiedade, depressão ou transtorno alimentar, quando se reforça um perfeccionismo autocrítico. Ou seja, são essas dinâmicas em que não se tolera cometer erros, quando nos punimos e nos desprezamos por não sermos como nossas referências, por sermos, em essência, imperfeitos. Isto é, humanos.

Você está procurando a perfeição? Será que tudo que você faz tem que ser impecável e sem falhas? Você se pune quando ganha peso ou não parece atraente o suficiente ? Então você caiu na armadilha da autoexigência e da infelicidade.

Menino olhando para o celular à noite representando o elo da autoexigência e das redes sociais
O perfeccionismo excessivo está aumentando exponencialmente nos últimos anos devido às redes sociais que usamos para nos comparar com os outros.

Aceite nossa imperfeição, a cura para a ansiedade

Há um princípio que nasce na teoria da comparação social definida por Leon Festinger em 1954 e que vale a pena relembrar. As pessoas naturalmente tendem a se comparar com as outras. Às vezes, tomamos a realidade que nos cerca como aquele espelho no qual nos olhamos e nos esquadrinhamos para ver quais semelhanças temos e, principalmente, o que nos diferencia daqueles que observamos.

Desejamos o triunfo dos outros, sonhamos com o corpo de quem é admirado e aspiramos, acima de tudo, ser como a nossa cultura nos dita. Ou seja, perfeito e bem sucedido. Poucas narrativas são mais complicadas e distorcidas do que aquelas tiranias que nos são vendidas nos espaços como Instagram, Facebook ou TikTok.

Devemos ensinar desde cedo às crianças a necessidade de se aceitarem, de lutarem pelo que querem, mas tolerantes com a imperfeição. A autoexigência e as redes sociais compõem essa equação da qual devemos protegê-las, iniciando-as no uso adequado desses aplicativos e promovendo um bom diálogo interno.

Se diminuíssemos essas cotas de autoexigência, aliviaríamos as cotas de ansiedade e desconforto. O bem-estar psicológico é, antes de tudo, a capacidade saudável de tolerar nossos erros para aprender com eles. Equilíbrio mental é nos valorizarmos como somos, com nossas virtudes e imperfeições, sem nos obcecarmos com falsos ideais construídos com base em filtros e meias verdades.

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