Os "frenemies", uma figura estressante no trabalho

Os "frenemies" são aqueles colegas de trabalho com quem, apesar de mantermos uma relação mais ou menos cordial, sabemos que é melhor não confiar neles, porque podem nos trair a qualquer momento. Essa situação te parece familiar?
Os "frenemies", uma figura estressante no trabalho

Última atualização: 12 março, 2022

Os “frenemies” são essas figuras que encontramos em todos os ambientes de trabalho e com quem estabelecemos uma relação ambivalente. Por um lado, podemos nos dar bem com eles, trabalhar ao seu lado e ter conversas cordiais. No entanto, sentimos que é impossível confiar neles porque algo nos diz que eles podem nos trair a qualquer momento.

Há uma voz interna que nos repete várias e várias vezes: “cuidado, fique atento”. Estas são personalidades que transitam nessa área cinzenta dentro das relações humanas e que todos nós conhecemos. Afinal, se há algo que a maioria de nós sabe, é que é muito fácil identificar os amigos verdadeiros, aqueles que nos trazem luz e bem-estar. Enquanto isso, também temos os nossos inimigos bem catalogados no extremo oposto.

Porém, aqueles que ficam no meio nos trazem outro tipo de complexidade que é mais difícil de definir. Trata-se de perfis que, embora não sejam tão ameaçadores quanto um inimigo, também não se estabelecem como aliados e cúmplices do dia a dia. Assim, os frenemies são homens e mulheres que podem ser amigáveis hoje e nos criticar pelas costas amanhã

equipe de trabalho com amigos

Quem são os “frenemies”?

Podemos conviver com os nossos frenemies, porém sabendo que, a qualquer momento, eles vão cuidar dos seus próprios interesses e nos trair. É comum tê-los como colegas de trabalho, embora este também possa ser o caso de um amigo ou até mesmo de alguém da nossa família. Estas são figuras que gravitam ao nosso redor e com as quais colidimos de vez em quando.

Uma coisa que precisamos entender sobre esses tipos de laços sociais é que eles não são inofensivos. Pelo contrário, o impacto psicológico que eles podem ter na nossa saúde é bastante intenso e, às vezes, até mesmo prejudicial. Por isso, Esopo dizia em suas fábulas, de forma muito acertada, que ter um amigo duvidoso é muito pior do que ter um inimigo certo. Afinal, não sabemos o que esperar e a insegurança, assim como a desconfiança, trazem a sensação de que estamos caminhando sobre areia movediça.

É interessante saber que faz bem pouco tempo que a psicologia voltou a sua atenção para essas “áreas cinzentas” das nossas relações sociais. Aqueles que não são amigos, mas também não são inimigos, acabam sendo muito prejudiciais, de acordo com pesquisas científicas. Vamos analisar o assunto.

Não podemos fugir de todas as pessoas que geram desconfiança em nós

Quando falamos dessas pessoas que nos trazem mais preocupações do que momentos de tranquilidade, é comum que mais de uma pessoa nos diga que “é melhor manter distância”. No entanto, isso nem sempre é possível. Vivemos em ecologias sociais evoluídas nas quais somos forçados a conviver uns com os outros.

Além disso, há também outro fenômeno evidente. Os frenemies são as figuras sociais mais frequentes no nosso cotidiano. Afinal, podemos contar os bons amigos nos dedos de uma mão e geralmente os inimigos também são bastante raros. Os laços sociais dessa área cinzenta e ambivalente, entretanto, são mais frequentes e, além disso, também geram complexos sentimentos de amor/ódio.

Há colegas de trabalho com quem convivemos mais ou menos. Aqueles com quem alcançamos objetivos e, às vezes, até mesmo saímos juntos para jantar. No entanto, temos a certeza de que essas pessoas nos criticam pelas costas de vez em quando e que, se puderem, vão nos trair para obter uma promoção. Estas são situações que inevitavelmente geram um alto nível de estresse.

Os frenemies se definem por um comportamento passivo-agressivo: haverá momentos em que eles buscarão a nossa cumplicidade e, tempos depois, vão acabar nos traindo.

Os frenemies são nossos concorrentes

Um dos livros mais interessantes sobre o comportamento humano, as nossas relações sociais e a evolução é Evolutionary Psychology: The New Science of the Mind, de David M. Buss. Neste trabalho, ele explica que os frenemies são um fenômeno comum na natureza humana, uma vez que somos criaturas sociais que competem entre si.

Ou seja, as pessoas podem ser tanto aliadas quanto inimigas, e isso aparece em praticamente qualquer cenário. Assim, os irmãos podem se amar, mas também podem acabar rivalizando entre si em algum momento. O mesmo também acontece em certas amizades. No entanto, onde o fenômeno dos frenemies mais se manifesta é nos ambientes de trabalho por causa do evidente contexto de competitividade.

Isso significa que, em média, esses homens e mulheres sempre tentam manter uma atitude amigável em relação a nós. Eles sabem que é sempre melhor estar bem com todos, manter a harmonia e as aparências. No entanto, somos muito conscientes de que essa proximidade é imposta e por interesse e que, no fundo, há ressentimento, hipervigilância e até mesmo ciúme.

O fato de não saber o que esperar dos nossos frenemies e de termos que estar sempre atentos ao seu comportamento faz com que essas situações sejam vivenciadas com estresse e ansiedade.

colegas de trabalho representando os frenemies

As relações ambivalentes geram estresse

Os frenemies são as nossas principais fontes de estresse no trabalho. Devemos entender que, se há algo de que o ser humano precisa é ter vínculos sociais com base na confiança. Quando isso não ocorre, não é percebido e não existe em qualquer relação, ficamos sempre alertas.

Trabalhos de pesquisa, como os realizados na Universidade Brigham Young, concentram a sua atenção na forma como as relações ambivalentes afetam a nossa saúde física e psicológica. Trabalhar com alguém que nos critica pelas costas, mas que depois nos elogia e nos convida para almoçar, é algo cansativo.  Da mesma forma, ter um parente ou amigo que apreciamos, mas que de vez em quando nos ignora ou mente para nós, acaba nos esgotando tanto mentalmente quanto emocionalmente.

Porém, insistimos: a solução nem sempre é tão simples quanto manter distância dessas figuras controversas e ambivalentes. Em muitos casos, somos forçados a gravitar, a permanecer ao redor delas. Ter incerteza relacional, não saber como certas pessoas vão agir, bem como não poder confiar nas pessoas ao nosso redor, é um fenômeno comum do qual não se fala o suficiente.

Somos obrigados, inevitavelmente, a conviver e a administrar as relações com os nossos frenemies. Assim, reduzir as nossas expectativas em relação a eles, bem como proteger os nossos limites emocionais, é fundamental para nos neutralizarmos e nos mantermos à tona.

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  • Buss, David (2009) Evolutionary Psychology. The New Science of the Mind.ISBN 9781138088610. Published March 14, 2019 by Routledge
  • Holt-Lunstad, J., & Uchino, B. N. (2019). Social Ambivalence and Disease (SAD): A Theoretical Model Aimed at Understanding the Health Implications of Ambivalent Relationships. Perspectives on psychological science : a journal of the Association for Psychological Science14(6), 941–966. https://doi.org/10.1177/1745691619861392