Pais que fazem gaslighting com seus filhos (desgaste emocional)

Fazer os filhos se sentirem culpados, subestimá-los, criticar o que eles gostam, isolá-los para que não se relacionem... Muitos pais praticam o gaslighting, mas muitas das vítimas só percebem quando ficam mais velhas.
Pais que fazem gaslighting com seus filhos (desgaste emocional)

Última atualização: 20 Junho, 2021

Existe uma forma de abuso psicológico que costumamos associar aos relacionamentos amorosos. Estamos nos referindo àquela forma de abuso em que uma pessoa procura alterar a percepção do outro, fazendo-o acreditar que o que vê, sente ou acredita é falso. Ora, é importante saber que também existem pais que fazem gaslighting com seus filhos e, com isso, buscam desgastá-los emocionalmente.

Este termo, gaslighting, constitui um tipo de manipulação muito insidiosa e deliberada que leva a vítima a se questionar sobre praticamente qualquer coisa. Aos poucos, tanto a autoestima quanto a própria identidade ficam completamente fragmentadas. Essa é a consequência das ações de um agressor que busca, acima de tudo, ter o controle e projetar suas frustrações no outro.

Embora seja verdade que há anos relacionamos essa dinâmica ao campo das relações afetivas, há outro cenário invisível que passa despercebido. São muitos os adultos que percebem, mais cedo ou mais tarde, que também sofreram essa forma de abuso. Porém, a origem dessa situação não está em uma relação conjugal, mas na família e em um dos pais.

Sofrer gaslighting na infância tem um efeito muito mais prejudicial a longo prazo. Afinal, uma criança não entende que está sendo manipulada, muito menos compreende por que o amor do pai ou da mãe é condicional. Vamos, portanto, analisar essa realidade.

Criança triste e pensativa

Pais que fazem gaslighting: características e consequências

O psiquiatra Irvin Yalom explicou em seu livro Love’s Executioner & Other Takes of Psychotherapy um caso tão chocante quanto ilustrativo sobre pais que praticam gaslighting. Uma de suas muitas pacientes foi uma mulher que procurou terapia por não ter conseguido superar a perda de sua filha, que havia ocorrido há mais de dez anos. Durante essas sessões, um fato arrepiante veio à tona.

Aquela mulher tinha direcionado toda a sua raiva e decepção para o filho mais novo, culpando-o e compartilhando com ele a ideia de que era ele, e não sua irmã, que deveria ter morrido. É verdade que a paciente do Dr. Yalom estava sofrendo de um trauma não superado. No entanto, quase sem saber, havia exercido um abuso profundo e invisível em uma criança que teria que enfrentar o enorme desafio de administrá-lo.

Por outro lado, é interessante saber que não é só a psicologia que se interessa por essa realidade. Alguns estudos, como o realizado pela Dra. Paige Sweet, da Universidade Harvard, mostram que este também é um fenômeno sociológico. De acordo com essa abordagem, o gaslighting surge como um efeito das diferenças de poder. Muitas vezes parte das desigualdades de gênero, de classe social, e também dos vínculos entre pais e filhos.

Como são os pais que fazem gaslighting?

A inoculação da culpa é o principal instrumento utilizado pelos pais que fazem gaslighting. Eles adicionam pequenas doses de culpa a quase todas as situações para aumentar o grau de controle que têm sobre seus filhos. Para descrever melhor, o que eles costumam fazer é o seguinte:

  • Os pais podem envolver os filhos em situações em que os pequenos não têm responsabilidade alguma. Caso o relacionamento do casal não vá bem, a criança é levada a acreditar que a culpa é dela, por exemplo.
  • Às vezes, o pai ou a mãe tem um filho favorito (o filho de ouro ou troféu). O outro irmão sofre gaslighting quando os pais o fazem acreditar que ele tem menos valor, que se comporta mal e que, por isso, merece menos carinho.
  • A mentira também é um recurso para invalidar a criança. Por exemplo: “A mamãe teve um dia ruim no trabalho porque você me deixou com raiva hoje de manhã.”
  • Eles subestimam ou ignoram qualquer valor ou talento dos filhos.
  • Qualquer hobby, paixão ou possível interesse das crianças sofre ataques frequentes pelos pais que fazem gaslighting.
  • Por outro lado, eles também tendem a recorrer ao isolamento social. Procuram vetar a independência dos filhos para tê-los sempre sob seu controle.

Pais que fazem gaslighting: consequências do abuso mental

Como já afirmamos, existem muitas pessoas que, só quando chegam à idade adulta, se dão conta de que foram vítimas de alguma forma de abuso psicológico. É muito comum, por exemplo, que muitos desses esquemas distorcidos e instilados pelos pais façam parte da sua personalidade.

  • Uma consequência comum é não confiar em seus próprios julgamentos. Quando uma pessoa é levada a acreditar que o que ela pensa, sente e acha é errado, ela precisa de muito tempo para tomar suas próprias decisões.
  • Em média, um efeito de ter sofrido esse abuso durante a infância é o desenvolvimento de uma certa insegurança pessoal e desconfiança em relação aos outros durante a idade adulta.
  • As vítimas podem ter baixa autoestima e problemas de identidade.
  • Elas se acostumam a colocar suas próprias necessidades em segundo plano.
  • Outra consequência é internalizar as emoções, calá-las, negligenciá-las… Tudo isso faz com que acabem somatizando muitos desses estados.
Pais apoiando seu filho

Como se recuperar de uma infância de desgaste emocional causada pelo gaslighting?

Os pais que fazem gaslighting, assim como pessoas que fazem isso em seus relacionamentos amorosos, existem. Desse modo, aqueles que já foram vítimas dessa forma de abuso psicológico por um tempo raramente saem ilesos. Há quem supere, é verdade, quem concentre toda a sua dor psicológica em alguma distração (trabalho, passatempo, esporte…).

No entanto, as feridas continuam sangrando, quase sempre sob a forma de estresse pós-traumático. É importante considerar que essa série de circunstâncias vividas na infância evidenciam uma forma de abuso psicológico. Portanto, é aconselhável procurar ajuda especializada.

A pessoa deve iniciar uma viagem de renovação e cura na qual vai precisar atender e reconstruir a autoestima e a identidade. Também é necessário expurgar a marca de culpa que os pais projetaram nos filhos ao longo dos anos. É necessário tempo para se libertar da perspectiva incutida por um manipulador a partir da qual a vítima é levada a acreditar que nada nela é válido ou importante.

No entanto, é vital superar essa fratura interna para avançar em integridade e plenitude.

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  • Sweet PL. The Sociology of Gaslighting. American Sociological Review. 2019;84(5):851-875. doi:10.1177/0003122419874843
  •  Yalom, I. (2012). Love’s Executioner & Other Takes of Psychotherapy. New York, NY: Basic Books