Os dois “relógios” cerebrais que nos permitem prever o futuro

junho 6, 2020
Todos nós temos dois "relógios" cerebrais, áreas neurais localizadas no cerebelo e nos gânglios da base que trabalham em conjunto para nos permitir fazer previsões a curto prazo.

Todos nós fazemos previsões quase a todo momento. Sabemos quando começa a melhor parte das músicas que ouvimos, por exemplo. Também tendemos a acelerar nossos passos quando sentimos que o sinal vai ficar vermelho. Prevemos o futuro de uma maneira simples e instrumental graças a dois fabulosos e precisos “relógios” cerebrais.

Albert Einstein disse que o tempo é pouco mais que uma ilusão. No entanto, se existe um órgão que parece entender essa dimensão quase objetivamente é o próprio cérebro. Graças a ele, conseguimos prever eventos que podem acontecer em um momento muito específico e reagir para deixá-los a nosso favor.

Algo assim nos permite, entre outras coisas, girar o volante do carro no último segundo para evitar um acidente. Também nos ajuda a escolher as palavras durante uma conversa com alguém, nos permitindo intuir qual frase pode nos ajudar.

Assim, os especialistas falam mais de “sintonia” do que de antecipação. Porque o que fazemos em muitas ocasiões é nos adaptarmos a esses acontecimentos do nosso entorno para fazer parte deles, eliminando riscos e sempre tirando algum benefício. Vejamos mais informações a seguir.

“Não se preocupe se o mundo vai acabar hoje. Já é amanhã na Austrália”.
-Charles M. Schulz-

Os dois relógios cerebrais

Os dois relógios cerebrais que nos permitem antecipar o que vai acontecer

O ser humano construiu relógios com um objetivo: ajudar a medir com precisão a passagem do tempo. Como tal, essa dimensão é sempre linear e segue o mesmo padrão. No entanto, para o nosso cérebro, a ideia de tempo é um pouco mais complexa. Quando estamos felizes e nos divertimos, o tempo passa incrivelmente rápido. Outras vezes, ele parece parar, especialmente quando vivemos eventos traumáticos.

Da mesma forma, doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e o Parkinson implicam situações em que o conceito de tempo e ritmo é alterado. Portanto, algo acontece dentro de nós que nos faz experimentá-lo de muitas e variadas maneiras. A resposta para esse quebra-cabeça está nos chamados “relógios” cerebrais. 

Um lugar para o tempo

Nosso cérebro tem um lugar onde reside o mecanismo para entender o tempo. Em 2005, foram descobertas as chamadas células de grade, que compõem nosso sistema de GPS (que nos indica onde estamos e permite que nos orientemos). Recentemente, um estudo da Universidade de Berkeley explicou onde fica e como funciona essa área do cérebro que articula e controla o senso de tempo.

  • Essas são duas áreas que os cientistas chamam de “relógios” cerebrais e que estão localizadas no cerebelo e nos gânglios da base. Ambas trabalham juntas para nos permitir fazer previsões a curto prazo.
  • O cerebelo, por exemplo, funciona de uma maneira muito específica. Ele atua no que é conhecido como intervalo de tempo ou ritmo, e entra em ação ao receber informações dos nossos sentidos. Além disso, ele regula a coordenação motora e a atenção. De acordo com especialistas, é o que nos permite reagir antecipando o que pode acontecer a curto prazo.
  • O “relógio” dos gânglios da base, por outro lado, regula o movimento, a percepção e o cálculo da passagem do tempo.

Esses relógios cerebrais, cada um localizado em uma região, trabalham de maneira coordenada. Graças a eles, podemos, por exemplo, reagir prevendo estratégias quando jogamos futebol, xadrez ou quando conversamos com alguém. Ao prever um evento, eles também usam a experiência e a memória para obter informações a respeito de como agir.

A percepção do tempo no cérebro

Uma porta para a esperança de alguns pacientes

Os autores desse estudo, como o Dr. Assaf Breska, apontam algo tão interessante quanto esperançoso. Sabe-se que os pacientes com degeneração do cerebelo ou Parkinson têm dificuldade em reagir a estímulos do seu entorno. Os pacientes com degeneração do cerebelo não respondem a sinais “não-rítmicos” e os pacientes com Parkinson apresentam déficits relacionados ao ritmo e a tudo o que é baseado em sequências (música, movimento, etc.).

Em ambos os casos há uma distorção muito clara do fator tempo (descoordenação) que afeta o dia a dia dos pacientes por completo. Assim, todos deles apresentam um problema em um desses relógios cerebrais. Nos pacientes com Parkinson, há um déficit no relógio dos gânglios da base, e em pacientes com degeneração no cerebelo, na importante área que antecipa o futuro.

A boa notícia é a seguinte: verificou-se que, com treinamento, a função de um “relógio” pode ser suprida pelo outro. A terapia seria baseada em vários jogos de computador e também em uma estimulação cerebral profunda. Algo assim permitiria, por exemplo, que eles se movessem e reagissem mais livremente, adaptando-se melhor ao ambiente.

No entanto, tudo isso ainda está em fase experimental e ainda não existem tratamentos definidos.

Estaremos atentos a qualquer progresso.

  • Albert Tsao, Jørgen Sugar, Li Lu ,Cheng Wang et al. (2018) Integrating time from experience in the lateral entorhinal cortex. Nature. DOI  10.1038 / s41586-018-0459-6
  • Assaf Breska et al. Double dissociation of single-interval and rhythmic temporal prediction in cerebellar degeneration and Parkinson’s disease, Proceedings of the National Academy of Sciences (2018). DOI: 10.1073/pnas.1810596115