O que é cerebelo, quais são as partes que o compõem e qual é a função dele?

O cerebelo representa apenas 10% do encéfalo, mas é muito importante para o correto funcionamento das habilidades motoras.
O que é cerebelo, quais são as partes que o compõem e qual é a função dele?

Última atualização: 01 fevereiro, 2022

O cerebelo é uma estrutura que constitui aproximadamente 10% do volume total do encéfalo. Ele é especialista no controle de movimentos, integrações sensório-motoras e equilíbrio corporal. Esta parte do encéfalo está localizada abaixo dos hemisférios cerebrais, envolvendo o tronco encefálico em sua parte dorsal.

O que une o cerebelo ao restante do encéfalo são três tratos chamados pedúnculos cerebelares. Eles têm várias conexões com diferentes partes do córtex cerebral que enviam informações sobre os movimentos do corpo. Juntamente aos gânglios da base, eles interagem com o sistema sensório-motor, coordenando e modulando a atividade dele.

Em suma, o cerebelo é responsável por regular o movimento e a postura, ajustando as saídas dos principais sistemas motores. Sua função é muito importante, por isso a ocorrência de lesões pode provocar déficits muito significativos e incapacitantes em relação ao movimento, equilíbrio e aprendizado, bem como sequências motoras.

“A neurociência é, de longe, o ramo mais emocionante da ciência, porque o cérebro é o objeto mais fascinante do universo. Cada cérebro humano é diferente; o cérebro torna cada ser humano único e define quem ele é”.

-Stanley B. Prusiner-

Leonardo da Vinci e o termo “cerebelo”

Algo que nem todos sabem é que um dos precursores da neurociência foi Leonardo Da Vinci. Apaixonado como ninguém pela fisiologia humana, foi ele quem realmente cunhou o termo cerebelo. Isso aconteceu no ano de 1504, em que Da Vinci passava grande parte das noites mergulhado em uma tarefa muito específica: fazer moldes de cera do cérebro humano e da área que ele chamou de cerebelo, ou seja, “cérebro pequeno”.

Esses dois pequenos hemisférios incrustados no cérebro chamaram a atenção dele, e já naquela época ele sem dúvida se perguntava que função teria aquela estrutura. Atualmente já conhecemos uma grande quantidade de dados sobre essa área e, de fato, ela é uma das estruturas que mais intrigam os neurologistas.

De fato, basta adiantar um dado: o cerebelo tem apenas 10% do volume cerebral, mas ao mesmo tempo contém quase 80% do total de neurônios do nosso cérebro…

A estrutura do cerebelo

Como explica um estudo da University College London publicado na revista Neuroscience, até o dia hoje nós ainda não conhecemos todas as funções do cerebelo. No entanto, o que sabemos claramente é como ele é formado. Estes são os dados:

A superfície cerebelar pode ser classificada em três partes diferentes: dois hemisférios e o vérmis. Quanto à organização, o cerebelo possui 3 camadas:

  • Granular. É a mais interna, sendo composta por um grande número de interneurônios (granulares e de Golgi).
  • Molecular. É onde se encontram os axônios das células granulares. Também existem interneurônios, mas eles são diferentes (estrelados e em cesto).
  • Célula Purkinje. Ela se situa entre as duas camadas anteriores e é composta pelos corpos das células de Purkinje, as únicas células de projeção do córtex cerebelar. Seus axônios vão para os núcleos profundos do cerebelo.
Partes do cerebelo.

Em relação aos núcleos profundos, no interior da substância branca podemos encontrar 4 pares de núcleos de substância cinzenta:

  • Núcleo denteado. O cerebelo envia o resultado da análise das informações do córtex motor sobre o início do movimento. Ele está envolvido no aprendizado de novos padrões motores.
  • Núcleos interpostos (emboliformes e globosos). São responsáveis pelo movimento dos braços e mãos (sistema rubroespinal). E também pelo aprendizado de novos padrões motores.
  • Núcleo do Fastígio. Lida com funções de equilíbrio e movimento automático.
  • Núcleo pontino. Ele comunica o córtex frontal de associação e o córtex motor primário com o cerebelo lateral.

Principais funções do cerebelo

O cerebelo é responsável por controlar funções motoras como coordenação ou equilíbrio. Essas são tarefas conhecidas há décadas, assim como o entendimento de que elas são fundamentais para a aprendizagem motora. Além disso, essa estrutura executa tarefas muito sofisticadas: uma delas são os programas neurais para o controle dos movimentos aprendidos. Graças a isso realizamos ações automáticas como dirigir.

Vejamos quais outras funções ele executa:

Homem dirigindo com cerebelo controlando o movimento.

O cerebelo e as emoções

O cerebelo está conectado ao sistema límbico e à amígdala cerebral. Graças a esse ponto de união podemos regular as nossas emoções, associar sensações a sentimentos e, por sua vez, aprender com esses processos.

Regulação dos nossos pensamentos

Em 2016, um artigo interessante foi publicado no Journal of Neurology onde o Dr. Jeremy D. Schmahmann, da Faculdade de Medicina de Harvard e diretor da unidade de ataxia do Massachusetts General Hospital, revelou algo impressionante. O cerebelo possui um um papel chave nos nossos processos cognitivos.

Esta teoria foi desenvolvida após uma prática clínica extensa. Jeremy pôde observar como os pacientes com lesão cerebelar apresentavam déficits nos domínios cognitivos das funções executivas, cognição espacial e linguagem.

O cerebelo e movimentos

O cerebelo tem conexões com diferentes partes do sistema nervoso central, graças às quais desempenha múltiplas funções:

  • Vestíbulo-cerebelar. Envia sinais corretivos aos núcleos vestibulares para modificar a postura e restaurar o equilíbrio. Lesões nessa via podem provocar instabilidade e nistagmo (movimentos oculares pequenos e rápidos).
  • Espinocerebelar. Está envolvido no controle da postura e locomoção, e modifica o tônus muscular. É responsável pelo controle dos movimentos dos membros. Uma lesão nesta via causaria marcha atáxica (cambalear e balançar ao caminhar).
  • Cérebro-cerebelar. Modulador dos sistemas descendentes do córtex cerebral. É essencial para a coordenação dos movimentos voluntários, estando envolvido no início dos movimentos. Uma lesão nesta conexão faria com que a movimentação demorasse mais para começar e terminar.

Nas diferentes conexões do cerebelo com as demais áreas, ele atua quase sempre como um regulador, registrando informações e regulando os movimentos de diferentes partes do corpo, dependendo da estrutura à qual está conectado. Funções como manter o equilíbrio ou aprender um novo movimento podem ser difíceis se essas vias são interrompidas.

O que acontece quando ocorre uma lesão no cerebelo?

Quando o cerebelo sofre uma lesão algumas das suas funções podem ser comprometidas, provocando problemas motores. Pode ocorrer uma perda na capacidade de controlar com precisão a direção, força, velocidade e amplitude de movimento, além da capacidade de se adaptar às condições de mudança nos padrões de outputs.

  • Os déficits podem ser produzidos repentinamente por uma lesão ou gradualmente pela degeneração do cerebelo. A síndrome cerebelar pode ser causada por uma lesão no cerebelo ou nas vias cerebelares.

Uma lesão nestes órgãos pode levar a duas síndromes sintomáticas diferentes: síndrome vermiana (arquicerebelar) com alterações na estática e na marcha e síndrome hemisférica cerebelar (neocerebelar) com alterações na coordenação do movimento. Uma lesão nas vias aferentes produz a síndrome arquicerebelar, e a das vias eferentes se manifesta por uma síndrome neocerebelar.

Homem com lesão no cerebelo caminhando.

Uma pessoa com lesão cerebelar pode ter dificuldade em manter uma postura estacionária (de pé) e tentar se manter nesta posição causa tremores. Também é comum detectar anormalidades no equilíbrio, marcha, fala e até mesmo no controle dos movimentos oculares, de forma que movimentos de todos os tipos podem ser afetados. Quem sofre deste problema tem dificuldade em aprender novas sequências motoras.

Patologias que provocam a degeneração do cerebelo

Algumas doenças neurológicas podem provocar a morte neuronal no cerebelo. Assim, a degeneração cerebelar pode favorecer as seguintes condições:

  • Esclerose múltipla, na qual o dano à mielina pode afetar o cerebelo.
  • Encefalopatias espongiformes transmissíveis, como por exemplo a doença da vaca louca. As proteínas anormais provocam a inflamação do cérebro, especialmente do cerebelo.
  • Ataxia de Friedreich, causada por mutações genéticas hereditárias que matam neurônios no cerebelo, tronco cerebral e medula espinhal de forma progressiva.
  • Doenças endócrinas que afetam a glândula tireoide ou pituitária
  • Abuso crônico de álcool, que provoca um dano cerebelar temporário ou crônico.

Os sintomas mais característicos da degeneração cerebelar são uma marcha vacilante e instável com as pernas afastadas, geralmente acompanhada por uma oscilação do tronco para frente e para trás.

Outros sintomas incluem movimentos lentos, instáveis e espasmódicos dos braços e pernas, fala lenta e arrastada e nistagmo (movimentos oculares pequenos e rápidos).

A degeneração cerebelar é frequentemente consequência de mutações genéticas hereditárias que alteram a produção normal de proteínas específicas necessárias para a sobrevivência dos neurônios. O tratamento dos distúrbios do cerebelo limita-se à fisioterapia e ao aprendizado de conviver com a falta ou deficiência nas habilidades motoras.

As doenças do cerebelo são raras, mas seu impacto pode ser muito prejudicial e afetar seriamente a qualidade de vida das pessoas que sofrem com elas.

Tratamentos para as doenças no cerebelo

Alguns distúrbios sistêmicos (como hipotireoidismo ou doença celíaca) e a exposição a toxinas podem ser tratados; a intervenção nestes casos dependerá das causas. Já no caso de lesões estruturais (tumores ou hidrocefalia), a cirurgia costuma ser a opção mais indicada.

Alguns tipos de ataxia podem ser revertidos se a causa subjacente for tratada; em outros casos ela pode desaparecer por conta própria. Por exemplo, um coágulo ou sangramento no cerebelo pode provocar ataxia, dor de cabeça, tontura, náusea e vômito. Um diagnóstico adequado permite que o paciente seja atendido de forma correta, o que ajudará a evitar danos permanentes.

No entanto, em muitos casos o tratamento geralmente é sintomático; por exemplo exercícios para melhorar o equilíbrio, a postura e a coordenação, bem como dispositivos para ajudar a caminhar, comer e realizar outras atividades diárias.

Por último, para evitar o aparecimento de distúrbios cerebelares são recomendados os seguintes cuidados:

  • Evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, bem como a ingestão de medicamentos como barbitúricos e benzodiazepínicos.
  • Evitar a exposição a metais pesados como mercúrio e chumbo, ou a solventes (como os usados em tintas). Eles danificam as células nervosas do cerebelo, provocando ataxia.
  • Limitar o consumo de cigarros, pois esse hábito aumenta o risco de ocorrência de um acidente vascular cerebral.
  • Praticar exercícios físicos ou atividades físicas regulares beneficia o coração e os vasos sanguíneos e reduz o risco de acidente vascular cerebral.
  • Proteger cabeça com o uso de capacetes, principalmente durante a prática de esportes radicais.

Carlson, N. (1996). Fisiologia do comportamento. Barcelona: Ariel.

Jonh H. Martin (2004). Neuroanatomia (2ª edição). Prentice Hall.

Pinel, J. (2006). Biopsicologia (6ª edição). Prentice Hall.

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